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O Estrangeiro

Wednesday, March 23, 2011 Post de Estante de Livros

Autor: Albert Camus
Título Original: L’Etrangér (1942)
Editora: Livros do Brasil (Colecção Nobel)
Páginas: 128
ISBN: 9723827956
Tradutor: António Quadros

Sinopse
Enriquecida de uma penetrante introdução de Jean-Paul Sartre, esta obra prima de Albert Camus é de pleno direito incluída na presente colecção. O Estrangeiro revelou e consagrou definitivamente Albert Camus como “clássico” da Literatura Moderna. Romance estranho, desconcertante sob a sua aparente singeleza estilística, nele se joga o destino de um homem que viveu a sua vida segundo a sensibilidade.

Opinião
Albert Camus foi um escritor e filósofo franco-algeriano que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1957. De entre as suas obras mais conhecidas, O Estrangeiro é frequentemente citado como a obra-prima, o que foi o suficiente para a ter escolhido para a minha estreia neste autor. O Estrangeiro faz parte de um conjunto de três obras que Camus dedicou ao absurdismo, compostas também pelo ensaio filosófico O Mito de Sísifo e a peça de teatro Calígula.

A personagem principal deste livro é o algeriano Meursault. A narrativa encontra-se dividida em duas partes, contadas na primeira pessoa, uma antes e a outra depois do crime que marcará indelevelmente a vida de Mersault. Ao longo da primeira parte, tomamos contacto com esta estranha personagem. Indiferente, será talvez o adjectivo que melhor a descreve, porque é a indiferença que marca a sua relação com as outras pessoas: fica indiferente à morte da mãe, é indiferente para com a sua amante, é-lhe indiferente casar, com ela ou com qualquer outra mulher, e a prática de um crime parece ser para ele um acto como outro qualquer. É como que uma personagem amoral, que não segue nenhum código de conduta e vai deixando a sua vida prosseguir de acordo com as circunstâncias que se lhe apresentam. Não é fácil o leitor se identificar com esta personagem ou com as suas acções, mas o facto de conhecermos a história de acordo com a sua perspectiva faz com que percebamos melhor o seu mundo e, estranhamente, as coisas acabam por parecer naturais. E o tom da escrita, claro e directo, adequa-se na perfeição a esta personagem.

A segunda parte acaba por ser mais filosófica, na medida em que Mersault é (parece que pela primeira vez) confrontado com o significado da sua vida. É nesta altura que mais se nota a influência das várias correntes filosóficas no autor, especialmente o absurdismo, que se refere à tendência do ser humano em procurar o significado inerente da vida e a falta de habilidade para o conseguir.

A edição que tenho contém uma introdução de mais de 20 páginas, da autoria de Jean-Paul Sartre, amigo de Camus, na qual mergulha profundamente nos significados filosóficos da obra. Optei por lê-la no final e não me arrependo, pois com a obra lida, este texto acaba por ganhar outra significância e ajuda o leitor a compreender melhor o que leu.

No final, e apesar de ter apreciado bastante este livro, fico com a sensação que não tenho suficiente “arcaboiço” para compreender esta obra em toda a sua plenitude, apesar de ter feito pesquisa antes, depois e mesmo durante a sua leitura, o que certamente me ajudou a interpretá-la melhor. Diria que é um livro com vasto material de análise e a dar muito que pensar. A reler no futuro. – Célia M.

4/5 – Gostei Bastante






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11 Responses to “O Estrangeiro”

  1. O pendor filosófico da obra de Camus confere-lhe uma complexidade significativa mas ao mesmo tempo significados que nos permite navegar num extraordinário mundo que penetra bem fundo nas várias dimensões da alma.

    O Estrangeiro foi a primeira obra que li de Camus. Fiquei maravilhado com Meursault e com a forma desprendida com que encara a existência. A temática do absurdo, levado quase ao extremo em O mito de Sísifo, permite-nos entrar num mundo diferente e abrir portas para novos domínios sobre o Ser.

    Cumprimentos,
    Filipe de Arede Nunes

    • Estante de Livros says:

      Filipe, tenho também “A Peste” por ler. Já leste esse? Se sim, que tal?

      Célia

      • Célia,

        Deixo-te um excerto do que escrevi no meu blogue a propósito de A Peste:

        O maior problema na obra de Camus para o leitor impreparado reside no facto de a alegoria estar construída de uma forma dissimulada, como se o próprio objecto do livro fosse o exemplo construído e não o seu significado mais oculto. Em Camus é necessário saber ler nas entrelinhas e procurar os mais dúbios sentidos.
        É que A Peste não é um simples livro que pretenda retratar apenas a vida de uma cidade sujeita a um flagelo capaz de condenar à morte, em poucos meses, mais de metade de uma cidade. A Peste não é apenas uma obra de reflexão sobre o sentido da vida e da relação entre seres humanos impotentes quando confrontados com uma calamidade. A Peste não é um mero romance no qual se ilustram personagens mais ou menos profundas e se lhe atribuem sentimentos frágeis.
        Não, A Peste é, talvez, o livro de Camus, no qual o autor francês coloca em causa os fundamentos da existência humana, põe a nu as fragilidades da virtude, da amizade, da tolerância e do amor, no qual questiona permanentemente o leitor sobre as bases fundamentais no qual assenta a sua entidade corpórea e terrena.

        Em suma: gostei muito. O Estrangeiro e a Peste foram os meus favoritos entre a obra de Camus. Mas ainda quero ler O homem revoltado.

        Cumprimentos,
        Filipe de Arede Nunes

  2. Olá Célia
    também eu senti essa falta de “arcaboiço” para ler e interpretar Camus. Ele não escrevia com a consciência de “escrever difícil” como fazem alguns escritores menores, com ânsias de estrelato. Ele “escrevia difícil” por que “vivia difícil e pensava difícil”. Foi um sofredor que trasportou para a escrita, como pucos, o seu sofrer.
    Correndo o risco de dizer um disparate eu até sou capaz de arriscar que Mersault será uma espécie de alter-ego do autor. Como Camus, Mersault foi um estrangeiro no seu próprio mundo, um homem que julgou ser livre caminhando pela vida sem exercer a vontade, sem imposições nem submissões. E o drama todo surge quando Mersault, o homem “tanto-faz” chega à horrível consclusão que a sociedade não perdoa a ninguém o atrevimento de ser livre. Todos temos de “carregar a pedra”, como Sisifo… a justiçã, arma da sociedade para controlar as vontades, encarrega-se de castigar Mersault por ter tido o desplante de ser um homem livre.
    A escrita de Camus é um mundo…

  3. Eu não te quero assustar, mas a Peste e o Mito de Sísifo são bem mais difíceis :( , pelo simbolismo que envolvem, principalmente o Mito de Sísifo.
    Já os li há uns anos, mas garanto-te que vale a pena o esforço

    • Estante de Livros says:

      Certamente, irei voltar a este autor daqui a algum tempo. Obrigada pelas dicas :)

  4. Beky says:

    Não sei se te aconteceu, mas ao ler O Estrangeiro fiquei com a sensação de que o autor vira o jogo e faz.nos questionar se não será a sociedade que está errada e dar razão a Meur­sault…

    De resto fiquei, tal como tu, com vontade de reler o livro, que parece ter tantas coisas escondidas e que não podem ser apreendidas numa única leitura.

    • Estante de Livros says:

      Beky, aconteceu-me o mesmo. Sou da opinião que uma das características dos bons escritores é fazerem-nos questionar as coisas, olhar para elas de outra forma, reflectir sobre aquilo que sempre demos por garantido e que julgamos estar correcto. Acho que Camus faz isso muito bem neste livro ;)

      • Nem mais!
        Becky, também senti isso. Mersault faz lembrar aquele soldado que dizia que só ele ia no passo certo, todos os outros estavam errados. E às vezes é isso que sentimos na vida.

        • Beky says:

          Pois, são exactamente esses os livros de que gosto mais, aqueles que não se limitam a ser um entretenimento mas que nos fazem olhar a vida, asociedade, as coisas de outra forma!
          Agora fiquei com muita vontade de reler este livro… ou talvez outro do mesmo autor. :)


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