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Leitor Convidado (4)

De livre e espontânea pressão

Como praticamente todos os leitores que conheço, acho que tenho 3 calcanhares de Aquiles, no que toca a livros: maus livros; maus filmes baseados em bons livros; e leituras obrigatórias.
Os primeiros são como tudo na vida… Há livros bons, há livros medianos, há livros maus e aprendemos a conviver com os que nos aparecem. Os segundos, bem, esses já chateiam um bocado mais, especialmente se os for ver ao cinema, que isto de dar dinheiro para correr o risco de estragar as imagens que tenho na memória de quando li os respectivos livros não é nada agradável. Já os terceiros, os livros que sou obrigado a ler, esses aborrecem-me a sério. E isto já vem de há muito…


Encontros obrigatórios de 1º grau
Acho que o primeiro livro que me lembro de ser obrigado a ler foi O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen, ou talvez tenha sido O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. De qualquer das formas, sei que ou foi no 7.º ou no 9.º ano, e que fui obrigado a ler tanto um como o outro, a certa altura. O que interessa aqui é que abominei ambos. Do Cavaleiro, pouco ou nada me lembro, excepto que foi exactamente o teste sobre esse livro que me deu a minha única negativa a português em toda a minha vida estudantil. Do segundo, lembro-me bastante bem. Ainda hoje figura na minha lista pessoal de “livros mais odiados”.
No entanto, verdade seja dita, entre o 7.º e o 9.º ano, todos somos um pouco revoltados com tudo e com todos e isso provavelmente contribuiu para o meu problema com estes 2 livros, embora não tenha sido o único na turma, mesmo sendo o que estava mais habituado a ler.


1, 2, 3, impingem-me livros outra vez
Foi no 10º ano. Acredito piamente que tenha sido o pior ano de livros obrigatórios. Entre a Aparição, de Vergílio Ferreira; os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes; e os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, venha Mefistófeles e escolha!
A Aparição é um livro pesadíssimo, profundo, difícil de compreender por adolescentes nos seus 14/15/16 anos que ainda não sabem muito bem o que é o existencialismo, e que só agora começam a dar os primeiros passos na filosofia; Esteiros é um livro que embora não seja tão complicado, acaba por ser pesado, com a crueza com que se apresenta a pobreza e a miséria, acabando por ter fortes ligações à política, que, mais uma vez, ninguém acaba por perceber; por fim, os Novos Contos da Montanha, um livro que aparenta ser mais leve, não é, no entanto, de todo, um livro minimamente adequado. A única coisa que me lembro é de como me arrastei pelas páginas fora, num autêntico sacrifício de prova de força de vontade.
Acho que a única diferença destes últimos para os 2 primeiros, é que nesta altura, já imbuído do espírito de uma espécie de proto-adulto responsável que se começava a formar em mim, consegui tirar boas notas, deixar de lado o refilanço puro e duro, e simplesmente perguntar: “Porquê?”. Por que raio é que me obrigaram a ler aqueles livros? Boa pergunta. Tão boa que até teve direito a várias respostas, desde “faz parte da literatura portuguesa, tem que se conhecer”, a “são livros óptimos, se não gostas, não sabes ler”, passando pelo típico “é preciso incentivar a leitura, neste país de incultos e analfabetos”.


Conhecer é importante, perceber é dispensável
Pelo menos é isso que devem pensar algumas pessoas. Dizem-me que é preciso conhecer, porque são livros importantes, que fazem parte da literatura e cultura portuguesas, mas se calhar deviam tirar os olhos desses ideais e pensamentos maravilhosos para porem os olhos nos alunos portugueses.
Uma boa percentagem só está na escola porque é obrigado e a grande maioria acha que 300 páginas já são um calhamaço horrível e pesadão. Dos que sobram, metade só lê A Bola e a Bravo, a maior parte dos outros nunca leu um livro até ao fim em toda a sua vida, e depois lá há 3 ou 4 que lêem regularmente. Não me parece que obrigar estes alunos a lerem tratados filosóficos seja muito boa ideia…



Se calhar não sei mesmo ler
Bem, eu sei e mesmo assim não gostei ou tive algumas dificuldades em compreender. Confesso que grande parte da Aparição me passou completamente ao lado. E eu lia regularmente! Agora imaginem alunos que escrevem sem acentos “para ser mais fácil”, que perguntam qual é a diferença entre “assento” e “acento”, e que quando lêem, num teste, que é para “transcrever exemplos”, perguntam se é para sublinhar no texto ou para copiar para a folha de teste… Como é que esses alunos vão perceber divagações existencialistas, ironias trabalhadas e críticas disfarçadas, ou até simples recursos estilísticos e artifícios de escrita?
Não seria melhor obrigá-los a ler uns livrinhos mais leves, mais fáceis de compreender? Ou, melhor ainda, dar a escolher? Primeiro incentivar e só depois, calmamente, ir introduzindo livros mais complicados, em vez de passar d’O Principezinho para a Aparição, como se fosse uma evolução muito natural.


É como usar carne crua para incentivar um anoréxico a comer
Perdoem-me a imagem que talvez seja um bocado forte, mas é mesmo esta a ideia. É que até há quem goste de carne crua e quem diga que é do melhor que já alguma vez comeram, mas talvez não seja o melhor para incentivar alguém que não come, a comer.
O facto de obrigarem a ler este tipo de livros, desta maneira, leva apenas a umas estatísticas muito bonitas, e a estatística tem sempre aquela história que eu adoro contar: estando eu e um amigo meu sentados à mesa, eu como um frango inteiro. Estatisticamente, naquela mesa, cada um de nós comeu meio frango, mas na realidade eu empanturrei-me e o meu amigo ficou a morrer à fome!
Aquilo que realmente acontece é que 90% dos alunos, sem exagero, não lê o livro todo. Metade não passa das primeiras 5 páginas. Ainda hoje, já no 12º ano, toda a gente com 17/18/19 anos, vejo muitos colegas a lerem resumos atrás de resumos, em vez de lerem efectivamente a obra. Não digo que isto esteja correcto, nem que se deva deixar que assim continue, mas se o objectivo é mudar este cenário, está-se a fazer da maneira errada.


Além de que a palavra obrigatória é muito forte…
Sejamos honestos, ninguém gosta de ser obrigado a nada. Porque é que os leitores regulares haveriam de ser diferentes? O facto de me obrigarem, só por si, deixa-me logo de pé atrás, ainda antes de pegar no livro, apesar de até aparecerem uns livros interessantes, como o Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett e Os Maias, de Eça Queiroz, dois livros que gostei bastante.
Depois ainda me dão livros desadequados e de conteúdo maçudo, quando eu, logo à partida, não estava com vontade de ler aquilo… De que é que estavam à espera, de uma epifania milagrosa e de um súbito entendimento do existencialismo, sobre o qual nem se falou em lado nenhum?
Suponho que desde que no papel esteja “alunos do décimo ano lêem Aparição, de Vergílio Ferreira, importante obra portuguesa sobre o existencialismo”, pode-se ignorar a parte que diz “4 em cada 5 alunos acha que o título, Aparição, é referente à aparição de um santo”.
Deve-se incentivar e deve-se conhecer, claro! Mas não é a enfiar estes livros pelos olhos dos alunos adentro que a coisa vai lá. Em vez de acabarmos com algumas pessoas que não gostam de ler, uns poucos que adoram, e uma dose razoável de pessoas que se interessam, embora não o façam regularmente, acabamos com uns poucos que adoram e uma dose massiva de pessoas que diz “Esse? Ah, esse dei no 10º ano!”, mas que quando lhes perguntam o que acharam, dizem, de sorriso no rosto “Oh, achas que li?”.


Pois bem, e agora?
Agora não há muito a fazer. Esta situação só muda quando os intelectuais responsáveis pelos programas escolares e por todas estas decisões derem aulas e estiverem realmente numa escola. É que eu acredito que isto teoricamente, até pedagogicamente, seja muito bonito, mas na prática é o que se vê.
Sei bem que este retrato que aqui pintei não é exactamente igual para todo o lado, mas desafio quem quer que seja a provar-me que não é assim na maior parte do país… Embora eu acredite, lá no fundo, que o número de alunos interessados esteja a crescer exponencialmente, a verdade é que também vejo muitos cujo único uso que dão aos livros é de base para copos.
Para incentivar à leitura é preciso começar por dar obras mais leves e só depois partir para coisas mais complexas e pesadas. É preciso dar livros a escolher aos alunos, mesmo que seja só uma lista de 10 livros, para que haja ali uma sensação de escolha, de poder, no meio da obrigatoriedade. E é preciso ensinar a ler, não a dissecar exaustivamente cada minúcia e pormenor!
Já são poucos os que vêem os livros como objecto de prazer e divertimento, e é isso que falta a este “país de incultos e analfabetos”…


Texto da autoria de Rui Bastos, do blogue Que a Estante nos Caia em Cima


Sobre Célia

  • Li

    LOL
    Concordo absolutamente.
    Adoro ler, mas sou uma devoradora de obras de fantasia muito antes de ter entrado para o 10º ano.
    O secundário revelou-se uma fonte amarga de livros medianos e maus livros. Com Português B tive a oportunidade de ler A Reliquia, o Memorial do Convento e o Felizmente à Luar (e mais umas obras que não me lembro).
    O primeiro, é aborrecido, uma critica a uma sociedade que já não é a nossa e que nunca ninguém tomou realmente a liberdade explicar como era realmente… Além do mais a história em si deixa bastante a desejar e aquelas ilusões do Raposão são esquisitas até ao infinito.
    O Memorial do Convento… já ouvi dizer que quem não aprecia os livros de Saramago é porque não tem cultura. Ora sendo eu uma pessoa sem cultura porque é que sei que um paragrafo com duas folhas é um grave erro gramatical? Considerei a história interessante mas o livro está sem dúvida mal escrito.
    Nem quero imaginar a nota do aluno que tivesse a infeliz ideia de escrever um texto assim numa aula… é um mau exemplo de escrita.
    Se há livros portugueses melhores para o secundário? Há. Agora só têm de os por no programa.

    • Hugo Freitas

      A Aparição não é só no 12º? comigo foi, mas também já lá vão quase 15 anos. Queria só dizer que, gostando mais ou menos das obras ditas obrigatórias nos tempos do secundário, estou grato por podê-las ter lido naquela altura, com aquela idade. Fazem parte da minha formação.

      Adorei a Aparição, fascinou-me na altura, ao contrário da grande maioria dos meus colegas. Sortudo que sou 🙂

      • Entretanto o programa mudou, e a “Aparição” passou para o 10º 😉

    • Também já li “A Relíquia”, mas sem ser para a escola, e até gostei. O “Memorial do Convento” e o “Felizmente há Luar!” ainda vou ler este ano.

      Quanto à escrita do Saramago, um parágrafo com duas folhas não é um erro gramatical, por muito pode ser considerado deselegante, mas não é exactamente um erro…

      Quanto à parte do aluno que escreva assim numa aula, realmente apanharia logo porrada!

    • Se tem cultura como diz, então devia saber que um texto literário não tem, obrigatoriamente, que respeitar as regras gramaticais. Um texto literário não é, de forma alguma, uma norma, logo, não se rege por nenhum meio normativo.

      • Li

        Então o meu amigo que experimente escrever um texto dessa forma num teste de Português para ver se não tem logo um belo de um 0.

  • Concordo a 100%. Aliás, noutros países os estudantes podem escolher de uma lista pré-seleccionada, mas a diferença é que TÊM escolha. Eu também não gostei particularmente de nenhum dos livros que fui obrigada a ler, embora anos mais tarde tenha relido “O Principezinho” e tenha adorado.
    E, sinceramente, esta ideia que na escola têm de nos fazer estudar até ao mais ínfimo pormenor cada sentença de cada livro, é mesmo para afastar os jovens da leitura. Se nem os que já gostam de ler gostam de analisar uma obra até a exaustão, que dirão os que nem de ler gostam? E, muito sinceramente, não em parece que os autores, quando escreveram os livros, quisessem que estes fossem estudados em tanto detalhe, que até os torna aborrecidos. Como é que novos leitores poderão apreciar uma obra dada desta forma?

    • Exacto. Se nos dessem alguma escolha sempre era melhor, nem que fosse pela ilusão de termos sido nós a escolher o livro…

      E o termos que estudar cada frase ao pormenor é outra… É como dizes, se nem quem gosta de ler normalmente gosta de fazer isso, imagino o que será para quem não gosta de ler!

  • Muito interessante e polémico o teu texto, Rui.
    Confesso que fazes bem em mostrar o que todos sabemos e ninguém confessa aos professores que fazem: que muitos alunos limitam-se a ler os resumos e não lêem as obras. As questões que levantas (como por exemplo “porquê a Aparição?”) são aquelas que todos nós nos interrogamos, quando olhamos para trás. Acredita que no Ministério já foi debatido a opção/escolha de certas obras para fazer parte dos programas.
    Parte da razão porque certas obras são obrigatórias é porque fazem parte do nosso património, assim como os Jerónimos. Para mim não tem lógica passar pelo secundário e não conhecer os Maias ou o Viagens da Minha Terra. São, para o melhor ou pior, parte da nossa cultura. Os alunos preferem outras leituras e isso é compreensível. De certeza que a adesão seria massiva se obrigassem os adolescentes a lerem o Crepúsculo, mas nem é uma obra portuguesa nem a crítica especializada é consensual que seja uma obra de qualidade. Há critérios para que as obras surjam nos programas, mesmo que as mesmas sejam intragáveis para um miúdo de 16 anos. Os professores de português são pressionados a cumprirem o programa e as obras que estão no programa são para serem dadas.
    Pessoalmente, acho que há muitas formas de incentivar à leitura e não é obrigação da escola fazê-lo. É em casa, desde pequenino. A escola ajuda e conduz mas não incentiva. Não podemos culpar os “obrigatórios” do liceu como o que desmotivou a leitura de muitos. Nem podemos comprometer a qualidade de ensino a todos os níveis. Já basta os meninos não chumbarem de ano porque ficam traumatizados (pior medida implementada em Portugal, de sempre), com os resultados que hoje conhecemos: alunos que não sabem escrever e não sabem interpretar um texto.
    Acho que quem gosta de ler, procura, lê sempre e acima de tudo, lê o que gosta.

    • Estante de Livros

      Concordo com quase tudo o que dizes, mas acho que a questão essencial não é se as leituras obrigatórias desincentivam possíveis leitores, mas sim de que forma se pode cativar quem ainda não descobriu os prazeres da leitura. Como bem dizes quem gosta de ler acaba por ler de qualquer forma. Há sempre quem não tenha qualquer queda para a leitura, por mais voltas que dê, mas depois também há aqueles que, devidamente incentivados, podem vir a tornar-se leitores no futuro. É esses que, na minha opinião, não se estão a cativar. Claro que há casos e casos, mas a verdade é que a maioria dos alunos não tem maturidade para retirar todo o “sumo” dos livros que têm de estudar.
      Eu não gostei nada do “Aparição” que tive de ler no 12.º ano. Não contesto a qualidade do livro, ou sequer que se deva apostar em livros com um mínimo de qualidade para os alunos estudarem, mas não tinha maturidade suficiente para compreender a obra na sua totalidade com 17 anos. Tenho poucas dúvidas que, se o lesse hoje, o caso mudaria de figura.
      Não defendo que se deva optar por estudar livros como o “Crepúsculo”, mas não haverá livros de autores portugueses mais adequados às capacidades de alunos com essas idades? Não seria possível incluir outros livros no programa, para além dos que já lá estão, e permitir que os alunos possam escolher?
      E se concordo que o papel dos pais em casa é fundamental, acho que a escola pode e deve servir para incentivar a leitura nos casos em que não exista esse suporte em casa.

      Célia

    • Bem, é aquilo que a Célia diz, também não concordo que se devam dar maus livros aos alunos, nem digo que os livros que dão agora sejam maus, mas talvez não sejam os indicados. Não acho que a literatura portuguesa (e atenção que “O Principezinho” não é português…) se resuma a uma ou duas gerações de autores, porque é praticamente isso que nos dão.

      E concordo que a leitura deva ser incentivada em casa, e que o gosto deva ser cultivado em casa, mas se isso não é feito, e na maior parte dos casos não é, será que o indicado é dar estas obras e estudá-las desta maneira?

      Além de que o ficar a conhecer é relativo… Tenho um colega que me perguntou se o “Memorial” é do Eça de Queirós, e a generalidade da minha turma (eu incluído, confesso), no que toca à Aparição, só se lembra que há uma cena com uma galinha e que o livro é bastante aborrecido.

      Até porque a maior parte, atrevo-me mesmo a dizer que 95% dos alunos não pega sequer na obra! Lê os resumos, ou nem isso. Isso tem algum interesse? Acho que prefiro não conhecer determinado livro, a conhecê-lo e a não perceber patavina.

      • Eu até concordo com o que dizes Rui, mas tendo em conta que o objectivo das aulas de português é a análise dos livros, se todos os alunos escolherem um livro diferente isso já não é possível! Aliás, sempre houve, não só no secundário como também no ensino básico, o “contrato de leitura”, em que o aluno tem a possibilidade de ler um livro qualquer à sua escolha, e nem sequer há uma lista que o restrinja – se isto não serve para ajudar a incentivar a leitura não sei o que seja. Agora isto também não quer dizer que todos os alunos o façam, e a maioria acaba por escolher livros que não são os mais adequados para eles, e acabam por, como dizes, recorrer aos resumos na internet. Acho portanto que deveria haver um certo apoio dos professores neste sentido, em tentar ajudar os alunos a encontrar livros adequados para eles.

        Agora, é um facto que certas obras não são adequadas para as idades em que são incutidas, e deviam ser repensadas. Lembro-me que passei castigos para ler “Os Maias”, que, relembro, é escrito num português antigo, e portanto bem mais dificil de ler, principalmente para miúdos de 15/16 anos. Pelo contrário, o “Memorial do Convento” lê-se muito bem.

        Nestes casos acho que também devia haver um certo apoio dos professores, falar-nos um bocadinho sobre a história antes da leitura, para nos sentirmos curiosos e cativados, e não sermos imediatamente esbofeteados com um inicio absolutamente chato que nos faz desistir do livro antes de o conhecer.

  • Leandro

    Este texto é a imagem clara da degradação do ensino. Um estudante não anda na escola para ser entretido com actividades lúdicas, a escola tem de ser um espaço de confronto com a dificuldade.

    • Estante de Livros

      Leandro, não penso que o Rui esteja a defender o facilitismo. O que ele defende, e eu estou plenamente de acordo, é que de adeqúe os livros estudados à realidade da maioria dos alunos portugueses e que lhes seja dada a oportunidade de escolherem, dentro de uma selecção, o que querem ler.

      • S

        Pode não estar a defender o facilitismo, mas eu não sou assim muito mais velha e, no meu tempo (nem acredito que estou a dizer isto), li as histórias de Sophia e “O Principezinho” na primária. E, sim, gostei de ler a Aparição e Felizmente há Luar no 12º ano, Os Maias e as Viagens na Minha Terra no 11º (bem, Os Maias até já tinha lido uns aninhos antes) e no 10º ano até li Os Lusíadas todos só porque achei que seria mais interessante do que andar a ler só os excertos mais importantes. Em relação à polémica Aparição, lembro-me que houve bastantes colegas que gostaram, mesmo que não fossem leitores habitualmente.

        Não é só uma questão dos textos selecionados, é uma questão da preparação que se recebe até se chegar ao secundário (se falarem com pessoas com os seus 60 e 70 anos, daqueles que já tiveram a sorte de andaram nos liceus, verão que leram obras bastante complexas logo no início da adolescência), daquilo que se vê os outros em casa a ler (ajuda ter pais, irmãos mais velhos ou primos que sejam leitores ávidos) e os professores que se apanha ao longo do trajecto escolar. Felizmente, tive bastante sorte nestes três aspectos e comecei a poder ler coisas mais complexas muito precocemente e lembro-me que não era a única no meu grupo de amigos.

        • Aquilo que eu defendo é exactamente aquilo que a Célia referiu. Aliás, sou extremamente contra o facilitismo, é coisa que me chateia. Mas a verdade é que o país muda, a sociedade muda e os alunos mudam. Não digo que se deve fazer-lhes todas as vontadinhas, mas sim que se devem adequar os programas à realidade.

          Por exemplo, é absolutamente irreal e utópico querer que a maior parte dos alunos, no 9º ano, perceba sequer metade do que é dito nos Lusíadas. Não quero com isto dizer que acho isso bem, acho muito mal, mas não vale a pena estar a bater no ceguinho. Se a maioria não percebe uma coisa, e se continua a bombardear essa maioria com versões mais complicadas dessa mesma coisa, não se vai a lado nenhum.

          E sim, a escola é um sítio de confronto com a dificuldade, mas também para a superar e para ser ajudado a superá-la. A ideia não é atirar os alunos aos leões, mas também não é para os meter num spa. É preciso confrontá-los com dificuldades, mas dar-lhes meios para as superarem, e é isso que falta!

  • Como futura professora de inglês penso que a minha área ainda vai ser pior: se os alunos em português não querem ler livros, os que eu vou pedir para ler em inglês nem vão sair da estante. O problema é dos professores: PONTO e ainda pior esta treta do PNL, sim é uma treta – quem diz para ler a Marion Zimmer Bradley no 7º ano nunca leu o livro, ou se leu mais valia não o ter feito. Na verdade existem imensos professores de português/ Inglês etc que não lêem e o resultado é este: esmiuçam obras até sangrar e não dão espaço para os alunos descobrirem o que realmente gostam. No outro dia em Didáctica do Inglês deram uma planificação de uma aula, onde o professor especulava durante 2 horas um conto de Agatha Christie <_< Eu ia na 2º página de planificação e já estava a vomitar e a odiar a porra do conto e adicionei "Aqui está um belo exemplo de como NÃO dar uma aula de literatura aos putos do secundário."

    Antes de ter entrado para a faculdade e ter falado com pessoas que entendiam de literatura e souberam transmitir o fascínio pela leitura, pegava num livro por ano (ou seja era como qualquer adolescente) e hoje tento remediar isso com os meus alunos. Já lhes dei uma explicação sobre Casamento na Inglaterra na Idade Média, uma explicação sobre o Sandman do Neil Gaiman. Emprestei livros no início do ano para lerem e na verdade se não for obrigatório, por muito que gostem da capa e da sinopse não lêem.

    A minha irmã vê-se muitas vezes à rasca (tadinha já faz parte da nossa geração) para fazer uma ficha de leitura, porque dos 4 livros que ela lê por mês – nenhum está no PNL e os que fazem parte do 7º para ela são demasiado "bebés" ou seja ela leu: Nova Iorque do Brendan, Orbias do Fábio Ventura, "Como água para Chocolate" da Esquível e por fim o "Kiss me deadly" uma antologia de contos adolescentes. Eu encorajava-a a fazer uma ficha de leitura e ela tinha medo de fazer de qualquer um destes livros, porque não constavam do PNL e os professores tinham medo que os livros que ela fosse escolher fossem para uma idade menor, quando na verdade a maturidade dos livros que ela lê supera muito o próprio plano.

    Pessoalmente penso que os professores de português devem:
    1) Pedir a opinião pessoal dos alunos – no meu tempo isto não acontecia;
    2) Adaptar as obras ao nível/ interesse dos alunos;
    3) Fornecer filmes/ séries sobre um determinado autor/ período
    4) Usar as novas tecnologia (para além do Power-point) para discutir:
    eg. Se o professor está a dar o Saramago pode muito bem fornecer o filme recente e criar numa rede qualquer social uma discussão sobre a vida e as polémicas do Nobel da Literatura.

    Os professores de inglês na minha humilde opinião deveriam:
    1) Não dar só gramática – nem o programa;
    2) Dar/ analisar/ comentar contos em vez de livros inteiros – parece pouco mas se os alunos virem menos páginas fazem um esforço para lerem e no fim se conseguirem ler 10 contos já dá quase 2 volumes de uma antologia.
    3) Ir sempre em conta com os interesses – se a turma diz que odeia Tolkien não peçam para ler o Hobbit -.-"
    4) Ver se os alunos estão dispostos a ler e se não estão – não forçar.

    Outra coisa é o feedback. Muitos poucos professores pedem Feedback aos alunos – estão a gostar deste modelo: sim/não – porquê? Ou seja o aluno é encarado como uma espécie de máquina: senta-se, ouve, debita qualquer coisa e sai da aula. Mesmo que um aluno não goste do livro que está a ler, é preferível escrever algo a dizer porque é que não está a gostar ou porque irá desistir desse livro, do que desistir começar outro e no fim entregar tudo atrasado só porque teve de escrever uma ficha de leitura maravilhosa a dizer maravilhas.

    O professor nada pode fazer quando os alunos já têm ideias pré-definidas, ou seja terão de muito provavelmente arranjar uma maneira inteligente de dar a volta: mostrar um pouco da série de True Blood/ Game of thrones e se os alunos ficarem interessados fazer com que eles corram à FNAC/ Bertrand para ler a continuação. Claro que este post todo pressupõe algo chamado: VONTADE. Sejamos honestos com a carga horária de alguns professores esta vontade enorme de ajudar os alunos é quase impossível ou por outro lado existem aqueles professores que só gostam do Fernando Pessoa e do Vergílio Ferreira e não conseguem pensar "outside the box".

    Mesmo assim os poucos que iremos tentar guiar os nossos alunos para um futuro com letras já contam 🙂

    PS: Peço imensa desculpa devido ao post extenso, mas nestas alturas o sangue ferve x)

    • Concordo plenamente. No fundo é aquilo que disse, adequar os conteúdos à realidade actual, aos alunos de agora. E claro, algo que me faltou, a de fazer uso das novas tecnologias, que são algo que incentiva logo um aluno a prestar mais atenção.

      Mas sim, é preciso vontade, tanto dum lado como do outro, e isso nem sempre é simples de arranjar…

    • Li

      Quando eu entrei para o 10º ano, desapareceu a História dos manuais da língua. Esta foi substituída por coisas como a reciclagem e as compras… e nem me lembro de ter lido alguma coisa a inglês…

  • Concordo apenas parcialmente. Pelo que conheço dos planos de estudo da disciplina de Português, existem contractos de leitura efectuados entre professores e alunos. Muitas vezes esses planos são aplicados em apresentações orais. Um aluno escolhe um livro de uma muito extensa lista dos livros do Plano Nacional de Leitura, lê-o, e apresenta à turma o livro. Esta é a parte do incentivo à leitura.

    Não me parece que a leitura dos «Maias», por exemplo, seja um incentivo à leitura. Mas também não me parece que tenha sequer intenção de o ser. Estamos a falar de outro nível, outra vertente de estudo. Não se trata de incentivar – isso é feito noutro género de leituras, e com outros parâmetros de avaliação. Trata-se de interpretar.

    Os Maias são colocados para se ler no 11º ano, para se interpretar em sala de aula. Não venham dizer que não é preciso saber interpretar as coisas a este pormenor; afirmações como essas parecem de alunos do 8º ou 9º ano que dizem que não precisam de saber equações de 2º grau para nada. Acredito que estas coisas têm o seu sentido. Saber interpretar Os Maias é importante à sua maneira, porque é um treino de uma capacidade adquirida para outras situações de interpretação escrita na vida prática, e na própria literatura.

    Se fosse dada essa escolha de uma lista de 10 livros aos alunos para interpretarem, não existia uma uniformização a nível nacional, para ser usada em Exames, por exemplo; ou mesmo a nível de turma, o professor era obrigado a abordar a interpretação de dez obras na turma, e realizar dez testes diferentes? Não é viável nem realista.

    Esta é a minha opinião.

    • São raros, esses planos de leitura de que falas, mas concordo que são algo positivo.

      De resto, não concordo assim tanto quanto isso. Quer dizer, quando dizes que “Os Maias” não servem para incentivar mas sim para serem interpretados a um nível diferente, concordo. Mas se a maior parte dos alunos não lê normalmente, tenho sérias dúvidas que seja capaz de ler 700 e tal páginas com descrições extensas e um vocabulário riquíssimo e analisar o que quer que seja dessa obra.

      Aquilo que eu estou a tentar dizer é que por este andar, qualquer dia os professores de português não conseguem mesmo analisar o que quer que seja na aula, os alunos já nem se vão esforçar para pegar nos livros, olham para os resumos, vão ver e decorar apontamentos de outras pessoas, debitam a informação no teste e ficam todos felizes com o 18.

      Uma solução para a última coisa que dizes, talvez fosse os alunos escolherem o livro duma lista de 10, por exemplo, liam e analisavam em casa, com fichas de leitura e fichas preparadas para cada livro, e depois na aula analisavam contos e textos mais pequenos, qualquer coisa que permitisse ao professor ensinar-lhes as técnicas de análise antes de lhes dar algo desta magnitude (“Os Maias”, etc.) para analisarem. Os testes seriam igualmente sobre um texto novo, que não pertença aos livros da lista. Assim sim, talvez se conseguisse ver as verdadeiras capacidades de análise de um aluno, em vez das de memorização.

  • Eu sou um daqueles casos raros… Gostei de praticamente todas as leituras obrigatórias dos meus tempos de escola (excepção feita à Aparição). Por outro lado (e, sim, eu sei que já lá vão uns aninhos, as coisas mudaram e não estou a par de todos os detalhes de como as coisas funcionam agora), houve algo que sempre me fez impressão na análise dos textos, principalmente nos aspectos mais subjectivos.

    Na minha experiência, o que acontecia era que, muitas vezes, a única interpretação aceitável era a que o professor via no texto. Nenhum outro sentido poderia alguma vez estar certo, porque o que o professor nos indicava era que “o autor queria dizer isto” e ponto final. E, particularmente na poesia, tive sempre a sensação de que acabava por predominar a análise (às vezes, demasiado exaustiva) dos aspectos técnicos (rima, métrica, figuras de estilo que era preciso designar) do que propriamente do conteúdo.

    Sinceramente, acho que se perde algo de essencial na leitura com essa abordagem.

    • Não podia estar mais de acordo, isso é realmente um dos grandes problemas com que me deparei em muitas das minhas aulas de português. Como costumo dizer à minha actual professora “há muitas interpretações correctas, mas só esta é que está certa”. Porque é verdade, começa-se por dizer que é subjectivo, que cada um tem a sua opinião, mas somos obrigados a aceitar a opinião do professor, ou do programa ou da generalidade dos estudiosos ou seja lá o que for.

      Tens toda a razão quando dizes que se perde algo, com essa abordagem.

  • Bem, gostava de agradecer o facto de ter sido convidado para escrever para esta rubrica, especialmente sobre um tema que me interessa, o que me permitiu escrever um texto que me deu “gozo”.

    Já fui respondendo aos comentários acima, mas deixem-me só dizer que não pretendo, de forma alguma, defender o facilitismo, ou que defendo os alunos por não conseguirem e não quererem analisar os livros que nos dão. Aquilo que eu defendo é que se adeque o programa à realidade, que os senhores intelectuais que fazem o programa conheçam os alunos e vejam que 4 ou 5 meses a falar de Fernando Pessoa é um autêntico suplício e absolutamente desmotivante para muita gente. Ou que ter que ler a “Aparição” e fazer a ficha de leitura, no 10º ano, é simplesmente irrealizável, especialmente tendo em conta que não nos é dada praticamente nenhuma preparação para os conteúdos da obra (existencialismo, por exemplo).

    Eu sei que os alunos também têm vindo a “piorar”, é um facto, seja porque motivo for. Mas se se continua a dar o mesmo programa a alunos cada vez menos interessados e preparados, eles não vão milagrosamente ficar mais preparados e interessados, vão apenas ficar cada vez MENOS, vão-se desligar cada vez mais da escola, e lá se vai a educação pelo cano abaixo…

    Discussões (amigáveis! 🙂 ) à parte, um muito obrigado a todos, pela oportunidade de escrever este texto, e pelos comentários até aqui feitos!

    • Estante de Livros

      Eu é que agradeço, em nome do blogue.
      Acho que é um tema muito interessante e que, como já vimos, suscita opiniões bastante diversas. É interessante conhecer a opinião de um jovem leitor que, como tu, está dentro do “sistema” actual e que, por isso, tem uma visão informada do que se passa. 😉

      Célia

  • Lóide

    Não me vou adiantar muito, porque basicamente concordo com o que foi dito no texto que o Rui escreveu e acho que foi bastante bem explorado e exemplificado.
    Da minha parte, falo com alguém que nunca leu sequer uma única das obras seleccionadas como ‘leitura obrigatória’. A palavra ‘obrigatória’ associada a leitura sempre me fez uma certa confusão. Se eu leio porque é algo que adoro fazer, porque é que precisariam de me ‘forçar’ a fazê-lo? Assim sendo, eu, que actualmente até sou aluna da licenciatura de Literatura (vejam lá o quão preciso forçarem-me a ler!!), nunca me esforcei minimamente para ler as obras que me pediam que lesse. Nas poucas vezes que tentei, o resultado não foi animador.
    Mas o facto é que, passado o tempo do secundário e já na faculdade, tentei iniciar a leitura de algumas delas e terminei-as sem qualquer problemas, tendo gostado de grande maioria das obras.
    No entanto, um grande número de obras que é suposto serem estudadas nos vários níveis escolares não apelam ao leitor/estudante. Numa sociedade que cresce cada vez mais lentamente a nível psicológico/emocional, há pura e simplesmente temáticas que um adolescente de uma determinada idade não vai 1)interessar-se por elas; 2) gostar minimamente delas depois de começar a explora-las; 3) compreender sequer essas temáticas.
    Enfim, até acabei por me alongar mais do que tinha planeado.
    Bom texto e bom ponto de vista, Rui. Parabéns.

    • Pois, é um facto que algumas (muitas) das obras não apelam minimamente aos alunos que as têm que ler. O carácter obrigatória dessas mesmas obras só leva a um desinteresse cada vez maior, algo que é altamente prejudicial.

      E obrigado 😉

  • Excelente texto. De facto, actualmente, é tudo isto que se passa. Não se estimula a leitor, impinge-se e isso acaba por trazer mais ódios que amores. Durante a minha fase estudantil, não era uma leitora assídua e isso devia-se sobretudo ao facto de me obrigarem a ler. Gostava de ter vontade própria na escolha e isso não aconteceu.
    Não li Aparição, ainda que o meu exame nacional de 12º pudesse ser sobre o li, porque o achei demasiado pesado para jovens como eu e com uma temática completamente desapropriada à minha realidade. Ainda hoje, cada vez que vejo o livro e me dizem que é bom, só penso no tédio que me causaram as 1ªs páginas… e infelizmente o drama foi tão marcante que não tenciono dar-lhe 2ª oportunidade. Segundo me dizem, perco uma grande obra… Por outro lado, conheci obras maravilhosas do Eça de Queiroz e do Almeida Garrett que me agarram e graças às quais sou apaixonada por livros. Eram leitura obrigatória também, mas a forma como me foram apresentadas tornou-as diferentes… as temáticas estavam também muito mais ao meu alcance intelectual do que na Aparição.
    A nossa forma de encarar a leitura na escola tem de mudar. Tem de se saber apelar ao interesse dos alunos para descobrir, para investigar e não impingir, impor. Todos sabemos que o resultado prático dessas medidas costuma ser 0 de aprendizagem, 0 de paciência, 0 de vontade.
    Mais uma vez um excelente texto que toca em pontos fulcrais e que os nossos políticos, estudantes, professores, sindicatos deviam ler e tentar perceber o que e como mudar. Como nota humorística realço este excerto: “Embora eu acre­dite, lá no fundo, que o número de alu­nos inte­res­sa­dos esteja a cres­cer expo­nen­ci­al­mente, a ver­dade é que tam­bém vejo mui­tos cujo único uso que dão aos livros é de base para copos.”

    … Definitivamente, também conheço alguns que (mal) tratam assim os nossos estimados livros. Bom, artistica e decorativamente falando, os livros podem dar azo a muita coisa.

    • Obrigado! Tento sempre dar um toquezito de humor a este tipo de textos 😛

      E é mesmo isso, mais uma vez… A aprendizagem não tem que ser divertida, mas é muito mais fácil se o for. Aprendo muito melhor uma coisa se tiver interessado e se estiver a gostar.

      Também fui apresentado a boas obras e bons autores (gostei d’”Os Maias”, do “Frei Luís de Sousa”, da estrutura e técnica de escrita do “Sermão de Santo António aos Peixes”… Mas enfim.

  • Filipa Moreno

    Que belo texto. Concordo absolutamente com tudo o que foi exposto!
    Pela minha parte, as minhas leituras até ao 9º foram livres. Apenas tínhamos de fazer uma ficha de leitura e depois uns tantos eram escolhidos para apresentar a obra lida.
    No secundário li “Os Maias”, “Os Lusíadas”, “A Relíquia”, “Felizmente Há Luar” e “Memorial do Convento”.

    • Obrigado 😀

      Até agora, no secundário, já tive que ler a “Aparição”, os “Esteiros” e os “Novos Contos da Montanha”, no décimo, e não gostei de nenhum. No 11º li “Sermão de Santo António aos Peixes”, que gostei moderadamente, “Frei Luís de Sousa”, que gostei bastante (“Faredes como mandado vos é!”) e “Os Maias”, que adorei! Entretanto, este ano, no 12º, já li “Os Lusíadas”, de livre e espontânea vontade (na aula só analisamos algumas partes) e gostei muito, também! Tenho expectativas moderadas para o “Felizmente há luar!” e muito altas para “O Memorial do Convento”! Vamos lá ver o que sai dali 🙂

  • Oi,

    Eu não sei qual é o problema da palavra obrigatório…Infelizmente (ou não…) a vida não pode ser só o que gostamos. Eu não gosto de ler textos pesadissimos de simiotica que nem em português estão, mas tem que ser. Até porque a palavra obrigatório é uma mera formalidade, quem não ler os livros passa à mesma (pelo menos da maneira que as obras são dadas….). Agora o problema é que não se educam as crianças para a leitura desde pequenas, não ganham hábitos e depois claro é dificil compreender as obras. Na minha maneira de ver o problema não são os livros, se fossem outras haveria o mesmo desinteresse, o problema é que muitos jovens não têm hábitos de leitura nenhuns, muitos nem sequer hábitos de estudo quanto mais…Estamos a falar de alunos do secundário que deveriam já ter uma formação anterior. É um pouco como aprender matemática não se pode fazer uma equação de 3º grau se não se sabe fazer uma de 2º grau. Penso que o problema é muito mais abrangente.

    Eu cá gostei de todas as obras (não li a Aparição). Acho o Memorial do Convento uma obra extraordinária e Os Maias também, se bem que de Eça de Queiróz existem umas obras mais pequenas que talvez fossem mais do agrado dos alunos (Como A Campanha Alegre que é o retrato chapado do Portugal de hoje….Isso de Eça escrever sobre uma sociedade que não é nossa é realmente é um grande disparate, sem ofensa).

    Agora gostava de saber se estas obras não são adequadas quais serão….o crepusculo já agora?….os meninos já não leêm então seria o degredo. As obras dadas representam correntes da literatura que quando muito se deviam conhecer por alto. No que se devia apostar era em leituras paralelas á escolha do aluno, eu lembro-me de fazer isso quando andava na escola. Lembro-me também de nas aulas de português do básico organizar-mos uma biblioteca entre a turma 🙂

    Acho que se o programa fosse bem estruturado, as turmas fossem mais pequenas se poderiam fazer estas actividades de promoção da leitura mesmo no secundário, em vez de eliminar simplesmente as obras.

    Toda a gente tem os seus gosto, mas uma coisa é não gostar outra é não perceber sequer. Infelizmente os niveis de literacia continuam a ser elevados no nosso país.

    cumps e parabéns pelo seu texto!

    • Bem, isto parece que quando eu falo em livros mais adequados, toda a gente pensa no “Crepúsculo”. Digo aqui que não me refiro, nem por sombras, a isso nem a nada que se pareça. Mas sim a livros que, mesmo sendo dos mesmos autores que se dão agora, fossem mais “simples”, ou seja, menos densos, mais convidativos. O valor literário seria igual, ou parecido, a análise seria igualmente valiosa, apenas mais simpática.

      Talvez se se começasse assim, se pudesse ir avançado para livros mais densos e complexos… Ou então, antes de se lerem essas obras, lerem-se uns contos, como “O Mandarim” do Eça de Queirós, com muito pano para mangas para analisar, convidativo à leitura, engraçado, e que já deixaria os alunos preparados para ler e analisar uma obra maior do mesmo autor…

      De resto, obrigado ^^

      • Pois foi exactamente isso que eu pensei….Eu gostei de Os Maias mas entendo que algumas pessoas possam achar as descrições maçudas. O livro que mencionei no comentário anterior (Uma Campanha Alegre) é o melhor que já li de Eça: Divertido e nada maçudo (são pequenas crónicas). Também me lembrei do Mandarim, como é pequeno não assusta tanto lol

        Já como o Saramago não há nada a fazer ele escreve mesmo assim é daqueles escritores é que se gosta ou não, não há meio termo….Mas pelo que li parece que os autores do anterior programa eram a modos que complicados….

      • Não digam mal do Crepúsculo que até dá uma actividade interessante de discussão sobre o sexo antes do casamento 😉
        Eu de facto propunha “A relíquia” para se dar no secundário 🙂 Ou então Florbela Espanca (os contos) ou mais recente Maria Teresa Horta. Penso que em Portugal o problema são os clássicos – temos de ler o que é antigo – *faz um gesto não digno*. Existem hoje em dia tantas obras a sair maravilhosas – José Luís Peixoto, Maria Teressa Horta, Eduardo Pitta, até fantasia portuguesa – podia-se dedicar um bocado à escrita de mulheres. Uma pessoa não morre se não souber quem foi o Vergílio Ferreira, mas quantas pessoas não conhecem a obra de escritoras portuguesas esquecidas no armário para ensinar aos alunos.

        O problema também é o tempo que os professores usam a dar matérias: um conto não deve demorar mais que um bloco de 90 minutos – os Maias demoram 1 mês e meio… sempre com a mesma PORRA de livro. Eu adorei todas as obras que li – excepto a Aparição – mas quando agora leio o Vergílio Ferreira mando vir mas reconheço o seu “génio”.

        No mestrado dizem-nos isto: vocês vão dar matérias que gostam mais, outras menos – imagino também que muitos professores não gostem de metade do que dão, mas isso leva-nos a outros problemas: adaptar o programa. De facto os professores podem adaptar o programa – mas muitos seguem simplesmente o manual 🙁

      • Sara, eu quando li “Os Maias” não achei as descrições nada maçudas! Mas a certa altura compreendi que era graças aos livros do Júlio Verne, com descrições riquíssimas e maravilhosas, que podiam muito bem ser bastante longas! O “hábito” a juntar ao facto de gostar de ler e de até ter gostado do livro… Não tive grandes dificuldades. Mas realmente alguns colegas meus nem passaram da parte de olhar para a lombada, concluíam logo que eram muitas páginas e poof… Saramago enfim, é aquele dilema de sempre :p

        E não sei quais eram os autores do programa anterior 😡

        Adeselna, é verdade, há livros que também podiam dar uma boa análise e que não seriam tão maçudos. Aliás, no caso d’”A Relíquia”, toda a crítica social está lá presente, tal e qual como está presente n’”Os Maias”!

        • oi,

          Eu também não achei maçudo, Eça pinta verdadeiros quadros com as palavras….Mas infelizmente muita gente acha daí a ideia de começar a ler Eça por obras mais fininhas. Eu nunca tive grandes problemas com livros obrigatórios, como sempre gostei de ler. Tive algumas boas surpresas como António Vieira (o do sermão….) que achei muito actual, já o garrett….:(

          É tudo uma questão de se educar os alunos para a leitura, eu acho.

  • Num tema destes enfim é mais que certo que irei divagar… por isso a quem quiser ler peço alguma indulgência…

    Sinceramente sou um leitor ávido, de ficção e não ficção, e quase todas as obras referenciadas (positiva ou negativamente) pelo autor ou pelos comentadores disseram-me, e dizem ainda, pouco ou nada e não tem relação com a densidade da obra – eu por exemplo tive uma cadeira no secundário de literatura universal em que ao ler em detalhe a Ilíada de Homero (com um professor espectacularmente culto que percebia de filologia e tinha interesse em passar esse fascínio aos alunos) e tive uma epifania cultural. As obras de leitura obrigatória pura e simplesmente parecem estar escolhidas de acordo com uma noção arbitrária do que é culturalmente relevante e o que não é. Uma mistura estranha entre preconceito intelectual (há autores “sagrados” sem que se perceba bem o porquê já que o mérito de muitas obras parece ser essencialmente o retrato histórico) e agendas pessoais de quem organiza os currículos. Isto cria um ambiente literário completamente estéril em que a relação pessoal que o leitor é suposto criar com o que está a ler não é possível.

    Deve o aluno ser forçado a ler? Claro que deve. Há quinhentas formas de comunicação a disputar a atenção do jovem e quase todas mais fáceis que a leitura e oferecendo uma gratificação quase instantânea sem oferecer, nem de perto nem de longe, a mesma profundidade. Sem um critério de exigência a tendência será, naturalmente, do esforço mínimo. Envolve dificuldade? Pois. Mas a consequência de não se fazer o esforço são gerações com sérias dificuldades até em comunicar o que pensam quanto mais em ler regularmente. Simplesmente a leitura não devia estar resumida a textos mortos. Seria interessante ver uma série de currículos alternativos a funcionarem em paralelo que proporcionassem opções para o aluno mas dadas as dificuldades que os professores já têm com um programa uniforme não sei como se implementaria algo desse género.

    Há aqui outro tema que subjacente neste debate que é a contextualização dos livros e a sua relevância para o aluno de hoje que penso que é relevante. Considerando que muitas das obras interessantes dos últimos 3000 anos têm sérias influências filosóficas, políticas, sociais, religiosas e por vezes até económicas parece-me dúbio que se possa separar claramente a literatura do resto mas isso implicaria um modelo de aprendizagem completamente diferente tendencialmente integrado em que tudo isto cairia sobre a grande alçada de “Civilização Ocidental”. No presente ficámos com áreas fragmentadas em que ninguém percebe muito bem o porquê de cada coisa procurando a causa do que se estuda dentro daquilo que se que se está a observar (numa tautologia perpétua) – não é uma nota seca de 20 segundos na aula de português que explica de certeza as complexidades do liberalismo português de século XIX ou a aparição do debate da decência nacional (para dar um exemplo) e como estas afectam as criações literárias que por sua vez levam a um impacto cultural até então muito mais subtil. Será de estranhar que neste mar de meias histórias e meios interesses a maioria desespere e mande tudo às urtigas?

    Só podemos absorver aquilo que entendemos. O resto é bagagem que fica esquecida assim que humanamente possível. Têm dúvidas? Perguntem a qualquer pessoa o que é que a leitura dos Maias ou dos Lusíadas deixou em termos de marcas para a sua vida. Por muito emblemática que certas obras possam ser, por muito representativas da cultura portuguesa que alguns as achem a verdade é que muitas carecem de relevância ou pelo menos de significado para quem as lê.

    • Se fossemos falar de relevância então não se dava nada….Eu de tudo que dei houve muita coisa que ainda não me serviu para nada, mas como nunca se sabe vou mantendo em arquivo 🙂

    • Bem, quanto a este extenso e acertado comentário, para não me alongar demasiado, vou apenas dizer que concordo e que gostei particularmente disto: “há auto­res “sagra­dos” sem que se per­ceba bem o porquê já que o mérito de mui­tas obras parece ser essen­ci­al­mente o retrato his­tó­rico”. É que não podia ser mais verdade!