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Leitor Convidado (4)

De livre e espontânea pressão

Como praticamente todos os leitores que conheço, acho que tenho 3 calcanhares de Aquiles, no que toca a livros: maus livros; maus filmes baseados em bons livros; e leituras obrigatórias.
Os primeiros são como tudo na vida… Há livros bons, há livros medianos, há livros maus e aprendemos a conviver com os que nos aparecem. Os segundos, bem, esses já chateiam um bocado mais, especialmente se os for ver ao cinema, que isto de dar dinheiro para correr o risco de estragar as imagens que tenho na memória de quando li os respectivos livros não é nada agradável. Já os terceiros, os livros que sou obrigado a ler, esses aborrecem-me a sério. E isto já vem de há muito…


Encontros obrigatórios de 1º grau
Acho que o primeiro livro que me lembro de ser obrigado a ler foi O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen, ou talvez tenha sido O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. De qualquer das formas, sei que ou foi no 7.º ou no 9.º ano, e que fui obrigado a ler tanto um como o outro, a certa altura. O que interessa aqui é que abominei ambos. Do Cavaleiro, pouco ou nada me lembro, excepto que foi exactamente o teste sobre esse livro que me deu a minha única negativa a português em toda a minha vida estudantil. Do segundo, lembro-me bastante bem. Ainda hoje figura na minha lista pessoal de “livros mais odiados”.
No entanto, verdade seja dita, entre o 7.º e o 9.º ano, todos somos um pouco revoltados com tudo e com todos e isso provavelmente contribuiu para o meu problema com estes 2 livros, embora não tenha sido o único na turma, mesmo sendo o que estava mais habituado a ler.


1, 2, 3, impingem-me livros outra vez
Foi no 10º ano. Acredito piamente que tenha sido o pior ano de livros obrigatórios. Entre a Aparição, de Vergílio Ferreira; os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes; e os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, venha Mefistófeles e escolha!
A Aparição é um livro pesadíssimo, profundo, difícil de compreender por adolescentes nos seus 14/15/16 anos que ainda não sabem muito bem o que é o existencialismo, e que só agora começam a dar os primeiros passos na filosofia; Esteiros é um livro que embora não seja tão complicado, acaba por ser pesado, com a crueza com que se apresenta a pobreza e a miséria, acabando por ter fortes ligações à política, que, mais uma vez, ninguém acaba por perceber; por fim, os Novos Contos da Montanha, um livro que aparenta ser mais leve, não é, no entanto, de todo, um livro minimamente adequado. A única coisa que me lembro é de como me arrastei pelas páginas fora, num autêntico sacrifício de prova de força de vontade.
Acho que a única diferença destes últimos para os 2 primeiros, é que nesta altura, já imbuído do espírito de uma espécie de proto-adulto responsável que se começava a formar em mim, consegui tirar boas notas, deixar de lado o refilanço puro e duro, e simplesmente perguntar: “Porquê?”. Por que raio é que me obrigaram a ler aqueles livros? Boa pergunta. Tão boa que até teve direito a várias respostas, desde “faz parte da literatura portuguesa, tem que se conhecer”, a “são livros óptimos, se não gostas, não sabes ler”, passando pelo típico “é preciso incentivar a leitura, neste país de incultos e analfabetos”.


Conhecer é importante, perceber é dispensável
Pelo menos é isso que devem pensar algumas pessoas. Dizem-me que é preciso conhecer, porque são livros importantes, que fazem parte da literatura e cultura portuguesas, mas se calhar deviam tirar os olhos desses ideais e pensamentos maravilhosos para porem os olhos nos alunos portugueses.
Uma boa percentagem só está na escola porque é obrigado e a grande maioria acha que 300 páginas já são um calhamaço horrível e pesadão. Dos que sobram, metade só lê A Bola e a Bravo, a maior parte dos outros nunca leu um livro até ao fim em toda a sua vida, e depois lá há 3 ou 4 que lêem regularmente. Não me parece que obrigar estes alunos a lerem tratados filosóficos seja muito boa ideia…



Se calhar não sei mesmo ler
Bem, eu sei e mesmo assim não gostei ou tive algumas dificuldades em compreender. Confesso que grande parte da Aparição me passou completamente ao lado. E eu lia regularmente! Agora imaginem alunos que escrevem sem acentos “para ser mais fácil”, que perguntam qual é a diferença entre “assento” e “acento”, e que quando lêem, num teste, que é para “transcrever exemplos”, perguntam se é para sublinhar no texto ou para copiar para a folha de teste… Como é que esses alunos vão perceber divagações existencialistas, ironias trabalhadas e críticas disfarçadas, ou até simples recursos estilísticos e artifícios de escrita?
Não seria melhor obrigá-los a ler uns livrinhos mais leves, mais fáceis de compreender? Ou, melhor ainda, dar a escolher? Primeiro incentivar e só depois, calmamente, ir introduzindo livros mais complicados, em vez de passar d’O Principezinho para a Aparição, como se fosse uma evolução muito natural.


É como usar carne crua para incentivar um anoréxico a comer
Perdoem-me a imagem que talvez seja um bocado forte, mas é mesmo esta a ideia. É que até há quem goste de carne crua e quem diga que é do melhor que já alguma vez comeram, mas talvez não seja o melhor para incentivar alguém que não come, a comer.
O facto de obrigarem a ler este tipo de livros, desta maneira, leva apenas a umas estatísticas muito bonitas, e a estatística tem sempre aquela história que eu adoro contar: estando eu e um amigo meu sentados à mesa, eu como um frango inteiro. Estatisticamente, naquela mesa, cada um de nós comeu meio frango, mas na realidade eu empanturrei-me e o meu amigo ficou a morrer à fome!
Aquilo que realmente acontece é que 90% dos alunos, sem exagero, não lê o livro todo. Metade não passa das primeiras 5 páginas. Ainda hoje, já no 12º ano, toda a gente com 17/18/19 anos, vejo muitos colegas a lerem resumos atrás de resumos, em vez de lerem efectivamente a obra. Não digo que isto esteja correcto, nem que se deva deixar que assim continue, mas se o objectivo é mudar este cenário, está-se a fazer da maneira errada.


Além de que a palavra obrigatória é muito forte…
Sejamos honestos, ninguém gosta de ser obrigado a nada. Porque é que os leitores regulares haveriam de ser diferentes? O facto de me obrigarem, só por si, deixa-me logo de pé atrás, ainda antes de pegar no livro, apesar de até aparecerem uns livros interessantes, como o Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett e Os Maias, de Eça Queiroz, dois livros que gostei bastante.
Depois ainda me dão livros desadequados e de conteúdo maçudo, quando eu, logo à partida, não estava com vontade de ler aquilo… De que é que estavam à espera, de uma epifania milagrosa e de um súbito entendimento do existencialismo, sobre o qual nem se falou em lado nenhum?
Suponho que desde que no papel esteja “alunos do décimo ano lêem Aparição, de Vergílio Ferreira, importante obra portuguesa sobre o existencialismo”, pode-se ignorar a parte que diz “4 em cada 5 alunos acha que o título, Aparição, é referente à aparição de um santo”.
Deve-se incentivar e deve-se conhecer, claro! Mas não é a enfiar estes livros pelos olhos dos alunos adentro que a coisa vai lá. Em vez de acabarmos com algumas pessoas que não gostam de ler, uns poucos que adoram, e uma dose razoável de pessoas que se interessam, embora não o façam regularmente, acabamos com uns poucos que adoram e uma dose massiva de pessoas que diz “Esse? Ah, esse dei no 10º ano!”, mas que quando lhes perguntam o que acharam, dizem, de sorriso no rosto “Oh, achas que li?”.


Pois bem, e agora?
Agora não há muito a fazer. Esta situação só muda quando os intelectuais responsáveis pelos programas escolares e por todas estas decisões derem aulas e estiverem realmente numa escola. É que eu acredito que isto teoricamente, até pedagogicamente, seja muito bonito, mas na prática é o que se vê.
Sei bem que este retrato que aqui pintei não é exactamente igual para todo o lado, mas desafio quem quer que seja a provar-me que não é assim na maior parte do país… Embora eu acredite, lá no fundo, que o número de alunos interessados esteja a crescer exponencialmente, a verdade é que também vejo muitos cujo único uso que dão aos livros é de base para copos.
Para incentivar à leitura é preciso começar por dar obras mais leves e só depois partir para coisas mais complexas e pesadas. É preciso dar livros a escolher aos alunos, mesmo que seja só uma lista de 10 livros, para que haja ali uma sensação de escolha, de poder, no meio da obrigatoriedade. E é preciso ensinar a ler, não a dissecar exaustivamente cada minúcia e pormenor!
Já são poucos os que vêem os livros como objecto de prazer e divertimento, e é isso que falta a este “país de incultos e analfabetos”…


Texto da autoria de Rui Bastos, do blogue Que a Estante nos Caia em Cima


Sobre Célia

Tenho 35 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.