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[Opinião] O Mandarim, de Eça de Queiroz

Autor: Eça de Queiroz
Ano de Publicação: 1880
Editora: Quidnovi (colecção DN)
Páginas: 96
ISBN: 9789895547494
Origem: Comprado

Sinopse: Publicada no Diário de Portugal em 1880, esta história foi nesse mesmo ano editada em livro. Conta a viagem de Teodoro até ao Oriente. De uma simples vida, este funcionário público passou a ambicionar tornar-se milionário e para que isso acontecesse ouviu o diabo.

Opinião: O Mandarim é uma das obras de ficção curta de um dos maiores escritores portugueses de sempre, Eça de Queiroz, publicada originalmente em 1880, enquanto o autor vivia em Paris. Do Eça, já tinha lido os romances mais famosos (Os Maias – que hei-de reler, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio) e o livro de Contos, e gostei bastante de todos eles, pelo que foi com boas expectativas que parti para este livro.

A história é a de Teodoro, um empregado do Ministério do Reino. Levava uma vida calma, rotineira e financeiramente mediana. Tinha alguns desejos de subir na vida, mas não suficientemente fortes para o fazerem esforçar-se para sair da sua zona de conforto. No entanto, quando lhe é apresentada a oportunidade de herdar uma fortuna milionária de um distante mandarim chinês, que se encontra às portas da morte, Teodoro vê-se perante um dilema. Tudo o que Teodoro tem de fazer é tocar uma campainha e Ti Chin-fu morrerá, passando todas as suas posses para o português. Como seria de prever, é precisamente isso que Teodoro faz, tornando-se de um momento para o outro um dos homens mais ricos e influentes do país. Contudo, alguns problemas de consciência quanto ao facto de ter decidido a sorte do mandarim, e o pensamento da miséria em que a sua família terá ficado, leva Teodoro a empreender uma viagem à China, como um bom samaritano.

Uma das primeiras coisas que salta à vista ao iniciar a leitura desta história é o estilo inconfundível do autor. Por vezes cómico, mas sempre com a crítica mordaz à espreita, Eça de Queiroz é exímio na composição das suas personagens – neste caso de Teodoro – e na forma como utiliza a alegoria para fazer crítica à sociedade e à condição humana. Esta novela proporciona-nos reflexões interessantes no que toca à relação entre as posses de alguém e a forma como os outros a tratam (assunto tão actual, 130 anos depois) e toda a hipocrisia presente nestas situações; por outro lado, aborda a moral do ser humano e a influência, directa ou não, que tem sobre as suas acções. Eça faz-nos também reflectir sobre a relação entre o valor que damos às coisas e o nível de facilidade com que as obtemos.

A descrição da viagem à China é detalhada o suficiente para nos fazer pensar que o autor esteve lá, de facto. Mas não esteve, por isso o sucesso na transmissão ao leitor de um “sabor” oriental torna-se ainda mais valioso. Apesar disso, confesso que as histórias com elementos orientais não me fascinam particularmente e por isso nem sempre consegui apreciar como desejado o desenrolar do enredo. Foi uma das poucas vezes em que, ao ler ficção curta, não desejei que o livro fosse mais desenvolvido – o que pode ser um sinal positivo, indicando que o autor desenvolveu correctamente a sua história, ou um sinal negativo, uma vez que não tive muita vontade que a história se prolongasse. Ainda assim, um livro recomendado, e só tenho pena de não ter outra edição porque, como já referi, a qualidade dos livros desta colecção deixa muito a desejar. 

Classificação: 3/5 – Gostei

Livro n.º 81 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.