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[Opinião] Duna, de Frank Herbert

Autor: Frank Herbert
Título Original: Dune (1965)
Série: Dune Chronicles #1
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 576
ISBN: 9789896372484
Tradutor: Jorge Candeias
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará. O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad’Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império…

Opinião: Duna é um livro fundamental na literatura da ficção científica, considerado por muita gente o melhor de sempre no género, por ter, à semelhança de O Senhor dos Anéis na fantasia, revolucionado um género e ter servido de base a muitas obras que surgiram posteriormente. O próprio George Lucas admitiu que este livro serviu de inspiração à sua famosa saga Star Wars. Já tinha ouvido várias referências à obra, também pela adaptação cinematográfica de David Lynch, de 1984 – que ainda não vi – pelo que as expectativas para esta leitura eram bastante elevadas. Dado o meu conhecimento pouco aprofundado no que a este género em concreto diz respeito, esta nova edição da obra (que já tinha tido outra tradução, em três volumes, na colecção Argonauta da Livros do Brasil) veio servir de “desculpa” para finalmente ter oportunidade de ler este livro tão conhecido.

Duna é o nome pelo qual é vulgarmente conhecido o planeta Arrakis, pela sua paisagem árida e condições adversas para qualquer forma de vida, devido em boa parte à escassez de água. Em contrapartida, Arrakis é o único planeta onde se pode encontrar a especiaria melange, valiosa pelas suas propriedades geriátricas (o seu consumo alarga o período de vida e aumenta as capacidades mentais) e por ser essencial às viagens no espaço. Os vários planetas do sistema interestelar são governados numa espécie de sistema feudal pelas várias Casas Nobres, fiéis ao Imperador Padixá. No início da história, o governo de Arrakis é atribuído à Casa Atreides, e o Duque Leto e a sua família viajam para o planeta com essa finalidade. Arrakis tem um povo nativo, os fremen, que faz lembrar os povos árabes por alguns costumes e pela sua língua; mas este povo tem algumas particularidades interessantes, desenvolvidas pela necessidade da água: utilizam um fato especial para evitar a perda de água do corpo pela acção do calor, e que permite reutilizá-la, os próprios cadáveres são utilizados para recuperar a água e boa parte do precioso líquido obtido é armazenado para o bem futuro de todos. E é este cenário que Leto, a sua mulher e o filho de ambos, Paul, vão encontrar ao chegar ao planeta. Mas cedo descobrem que a sua estadia faz parte de uma conspiração que envolve altas esferas políticas e o grande inimigo dos Atreides, os Harkonnen.

Não vou desenvolver mais o enredo, para não estragar a leitura a quem ainda não pegou neste livro, até porque também não adiantaria de muito para quem já o conhece. Devo dizer que praticamente desde o início a qualidade da narrativa é notória. O que mais me chamou a atenção foi a forma como o autor entra na cabeça das personagens e nos revela os seus pensamentos, sendo um veículo excelente para nos permitir conhecê-las em profundidade e percebê-las, ainda que não nos identifiquemos com as suas acções. Sabemos constantemente o que as personagens pensam, e não raras vezes acompanhamos diálogos em que vamos sabendo quais os pensamentos das várias partes, sendo importante manter a concentração para não perdermos o fio à meada.

O mundo criado por Frank Herbert está muito bem construído, mas desde o início do livro são transmitidos conceitos desconhecidos ao leitor, a uma grande velocidade, que apenas mais tarde compreenderemos com maior exactidão… o que traz vantagens e desvantagens. Por um lado, alguma da informação pode passar despercebida ou pode haver confusão de conceitos; por outro, acaba por ser mais desafiante não nos servirem tudo numa bandeja, para que possamos perceber por nós próprios as regras de funcionamento deste novo mundo. No final do livro, temos os apêndices (com textos e glossário), que ajudam a perceber algumas coisas sobre o planeta Duna, sobre história do império e sobre alguns costumes. Há conceitos muito interessantes, como as Bene Gesserit, uma espécie de irmandade que ensina aos seus membros a utilizar a mente e o corpo para a obtenção de poderes que não sendo mágicos assim o parecem a outras pessoas, ou os Mentat, pessoas com grandes capacidades de raciocínio lógico e matemático.

A qualidade de um livro não depende do género em que se insere: é, sim, função directa da qualidade do enredo e da escrita, sendo o género apenas o veículo que o autor escolhe para nos contar determinada história. O valor literário de Duna é indiscutível e, apesar de ter vindo a cativar em especial os amantes da ficção científica, é um livro com potencial para agradar ao mais exigente dos leitores. Recomendado. 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Livro n.º 86 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.