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Admirável Mundo Novo

Friday, October 29, 2010 Post de Célia

Autor: Aldous Huxley
Título Original: Brave New World (1932)
Editora: Editores Associados – Unibolso
Páginas: 242
Tradutor: Mário Henrique Leiria

Sinopse
Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.

Opinião
Das distopias mais conhecidas, esta era a que me faltava ler pela dificuldade de encontrar o livro à venda… de tal modo que para o ler, teve de ser emprestado. Considerada das obras mais importantes do género, especialmente a par de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell,  Admirável Mundo Novo apresenta-nos uma sociedade futurista na qual os seres humanos são condicionados não só a nível biológico, mas também psicologicamente, antes de nascerem e ao longo da vida, para viverem felizes. Ou, pelo menos, felizes de acordo com as convenções próprias desta sociedade imaginada.

O conceito de família é inexistente: as pessoas são literalmente criadas em laboratório (processo para o qual o livro nos oferece alguma explicação científica) e as diferenças que possuem são determinadas desde essa altura, numa espécie de sistema de castas. Existem os Alfas, pertencentes à casta mais elevada, e depois os Betas, os Gamas, os Deltas e o Epsilons; cada uma delas tem tarefas e competências características, e as pessoas são condicionadas para se sentirem felizes com as tarefas mais ou menos básicas que desempenham e nunca desejar algo mais. Qualquer percalço é facilmente resolvido tomando doses de “soma”, uma droga sem efeitos colaterais.

A religião, nos moldes em que a conhecemos, não existem; existe, sim, uma veneração à metodologia fordiana (no livro, Henry Ford é tratado por Our Ford, derivado de Our Lord), adoptando-se os conceitos subjacentes à famosa Linha de Montagem implementada por Henry Ford aquando da produção, no início do séc. XX, do modelo Ford T. Na sociedade aqui apresentada, o sexo não é tabu e é visto com normalidade a existência de vários parceiros sexuais para pessoas que desde crianças ganham consciência sexual. Apesar de este modelo de sociedade ser o predominante, existem alguns locais onde vivem os chamados “selvagens”, que continuam a viver como os seus antepassados, em família e com as crianças – imagine-se! – ainda a serem geradas no ventre das mães.

É curiosa a utilização, para várias personagens deste livro, de vários nomes que remetem para figuras importantes na altura em que o livro foi escrito (e ainda hoje): Fanny Crowne, Polly Trotsky, Benito Hoover, Helmholtz Watson, Bernard Marx ou Lenina. Bernard é um pouco diferente, é um Alfa que se supõe ter sofrido alguma falha no processo de concepção devido à sua baixa estatura, para além de apresentar várias diferenças a nível de percepção do que o rodeia face aos restantes Alfas. Ainda assim, inicia uma “relação” com Lenina, e nesse contexto os dois irão visitar uma colónia de selvagens na América do Sul, onde encontram John, filho de dois seres humanos condicionados, que acabou por crescer completamente alienado da sociedade onde os seus pais foram criados. John cita Shakespeare em praticamente qualquer situação e não se consegue ambientar a este admirável mundo novo que terá de enfrentar. E é também sobre o choque entre estas duas visões do mundo que o livro se centra.

Por serem as duas distopias mais lidas e conhecidas, é quase impossível não comparar Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e Admirável Mundo Novo. E, se ambas nos apresentam uma sociedade onde a liberdade não existe, no livro de Huxley parece existir um menor controlo sobre as pessoas, porque está tudo tão enraizado que o controlo não é estritamente necessário. Como Neil Postman afirmou (tradução minha), “O que Orwell temia eram aqueles que baniriam os livros. O que Huxley temia era que não houvesse qualquer razão para banir um livro, porque não haveria ninguém que quisesse ler um. [...] Orwell temia aqueles que nos privariam da informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanto que ficaríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade nos fosse ocultada. Huxley temia que a verdade se afogasse num mar de irrelevância. “ Olhando para a nossa sociedade, e com as devidas diferenças, parece-me que a versão de Huxley é mais certeira. Ainda a propósito disso, aqui está um cartoon bastante interessante. Gostei muito de ambos os livros, mas esta leitura perdeu por já não ter o factor novidade que o livro de Orwell teve, para mim. Independentemente disso, é uma leitura altamente recomendada. – Célia M.

4/5 – Gostei Bastante

Livro n.º 88 de 2010


4 Responses to “Admirável Mundo Novo”

  1. Parabéns pelo ótimo blog. Se tiver tempo convido a visitar o meu mundo que trata de assuntos muito semelhantes.

  2. [...] – Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley (Estante de Livros) [...]

  3. Ricardo says:

    Adorei este livro, e tenho que parabenizar a Célia pelo verdadeiro “ensaio” que escreveu sobre esta obra, tudo muito bem explicado, a construção da mesma e aquele cartoon é um must :) parabéns Célia pela critica.

    Lendo este livro vejo que ainda existe muitas semelhanças daquilo que é ficção e ao que assistimos no mundo de hoje, só por isso Huxley, assim como Orwell eram uns verdadeiros génios.

  4. Dois livros perturbadores (quer este quer o 1984). Tanto mais por conseguirmos identificar elementos de ambos nas nossas realidades quotidianas. Fiquei com vontade de os reler depois disto.


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