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[Opinião] Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago

Autor: José Saramago
Editora: Editorial Caminho
Páginas: 423
ISBN: 9789722110211
Origem: Comprado

Sinopse: «Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como “um rastilho de pólvora”. Uma cegueira colectiva. (…) Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.»

Opinião: No final do ano passado, tentámos elaborar num tópico do fórum uma lista de livros que pretendíamos ler em 2010; entre os cinco que nomeei, um deles era este Ensaio Sobre a Cegueira, que seria (e foi) o primeiro livro que li do único escritor português a ganhar o Prémio Nobel da Literatura até hoje. O falecimento recente do autor e a consequente “corrida” aos seus livros fez-me pensar que talvez não seria a melhor altura para começar a lê-lo e decidi deixar passar mais algum tempo. O facto de ter decidido fazer um mês temático de autores portugueses (que, por causa das férias pelo meio não está a correr como desejaria) pareceu-me a oportunidade ideal para, finalmente, mergulhar na obra de Saramago.

Não escondo que iniciei esta leitura com um sentimento contraditório: se, por um lado, anos e anos a ouvir a ideia de que era um autor difícil de ler, pelo seu estilo peculiar de escrita, me deixaram algo receosa, por outro, algumas opiniões de pessoas que valorizo garantiam-me que ia gostar. Há autores que esperamos gostar e tornam-se uma desilusão; para outros partimos com poucas expectativas e acabamos por adorar. Este livro, para mim, não foi uma coisa nem outra: as minhas expectativas eram muito altas, e foram plenamente confirmadas.

Tudo se inicia quando um homem, doravante denominado primeiro cego, perde completamente a visão depois de parar o carro num semáforo. A cegueira que dizia ter era diferente da já conhecida: via tudo branco. Este mal branco espalha-se como um rastilho de pólvora: as pessoas com as quais o primeiro cego contacta são contagiadas e, apesar de fisicamente não apresentarem nenhum sinal visível de doença, esta não demora muito até se tornar numa verdadeira epidemia.

No início, e na tentativa de controlar o surto da doença, os responsáveis governamentais colocam os primeiros contaminados em quarentena, num antigo quartel, no qual o acesso ao exterior é praticamente nulo. Com o decorrer do tempo e com a chegada de cada vez mais cegos, a sobrevivência começa a ser cada vez mais o ponto fulcral e os limites a que o ser humano pode chegar o principal foco da história. O relato centra-se num grupo de pessoas, no qual se insere o primeiro cego e a mulher deste, o médico que o viu e a sua mulher (que vê), uma rapariga dos óculos escuros, um rapaz estrábico e um velho de venda preta. Para além de não sabermos o nome das personagens, não existem também quaisquer referências ao país em que se decorre a história.

Se tivesse de definir o enredo deste livro numa palavra, escolheria angustiante. É um livro muitas vezes violento, aflitivo e desesperante. Oprime o leitor, fá-lo viver todas as dificuldades das personagens que acompanha e a montanha russa de emoções que os assalta. É um livro que lida com o lado mais negro da natureza humana, mas que, apesar de todos os sentimentos sombrios que desperta, não deixa também de mostrar a luz ao fundo do túnel. A cegueira – pelo menos foi assim que o entendi – é uma alusão ao facto de muitas vezes as pessoas não conseguirem ver para além do que está à superfície e dos preconceitos, de acreditarem em tudo o que a sociedade quer que acreditem e de não perceberem realmente aquilo que verdadeiramente importa.

Quanto à escrita de Saramago: passado o primeiro impacto, e de me ter conseguido habituar a ler diálogos em texto corrido, foi uma leitura compulsiva. Não é preciso avançar muito no livro para perceber que estamos na presença de um escritor superior, alguém dotado nas palavras e que as sabe colocar no sítio exacto onde devem estar. Acho que é notório que adorei este livro, por isso não posso fazer mais nada senão recomendá-lo vivamente. Espero sinceramente ter oportunidade de explorar a obra de Saramago a fundo. 

Classificação: 5/5 – Adorei

Livro n.º 77 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.