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[Opinião] A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos

Autor: José Rodrigues dos Santos
Editora: Gradiva
Páginas: 354
ISBN: 9789896161729

 

Sinopse: Paulino da Conceição é um timorense com um terrível segredo. Assistiu, juntamente com a família, à saída dos portugueses de Timor-Leste e a todos os acontecimentos que se seguiram, tornando-se um mero peão nas circunstâncias que mediaram a invasão indonésia de 1975 e o referendo de 1999 que deu a independência ao país. Só há uma pessoa a quem Paulino pode confessar o seu segredo – mas terá coragem para o fazer? A vida e tragédia de uma família timorense serve de ponto de partida para aquele que é o romance de estreia de José Rodrigues dos Santos, precursor de grandes êxitos como A Filha do Capitão, O Codex 632 e A Fórmula de Deus. Um romance pungente onde a ficção se mistura com o real para expor, num ritmo dramático, poderoso e intenso, a trágica verdade que só a criação literária, quando aliada à narrativa histórica, consegue revelar.

 

Opinião: De todos os livros de José Rodrigues dos Santos, só ainda não tinha lido este A Ilha das Trevas e o último, Fúria Divina. Apesar de gostar da vertente informativa que os seus livros contêm e ser esse o principal motivo que me leva a lê-los, como escritor ainda não me convenceu. A Ilha das Trevas foi o seu primeiro trabalho dentro da ficção, publicado em 2002, e como me tinha sido bem referenciado parti para esta leitura com boas expectativas.

 

Este é um livro que aborda um conflito que os portugueses acompanharam e viveram de perto a partir de determinada altura – a luta contra a violação dos direitos humanos em Timor-Leste. José Rodrigues dos Santos descreve aqui, com detalhe suficiente mas não exagerado, as vicissitudes que levaram à invasão de Timor-Leste pela Indonésia em 1975, numa época complicada em Portugal a nível político e social, marcada pela descolonização dos vários territórios até então debaixo da sua soberania. Aproveitando a saída intempestiva de Portugal do local e as diferenças políticas dos residentes, a Indonésia deu início ao seu domínio sobre o território, através da violência, e passou a considerá-lo a sua 27.ª província.

 

Durante muitos anos, a comunidade internacional foi mais ou menos indiferente aos constantes massacres de que os timorenses foram vítimas e que dizimaram centenas de milhares de pessoas. O lento progresso rumo à denúncia destes crimes horríveis e à independência do país conheceu um desenvolvimento crucial com as imagens obtidas pelo jornalista inglês Max Stahl do massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, imagens essas que correram mundo e finalmente alertaram para o que se passava em Timor. Era uma criança, mas lembro-me perfeitamente de ter visto aquelas imagens horríveis e permanece na memória o barulho da sirene. Anos mais tarde, lembro-me também muito bem dos cordões humanos, do dia de sair à rua com camisolas brancas pela causa de Timor, dos minutos de silêncio que se fizeram em Portugal, da recepção entusiasta que o povo português ofereceu a Xanana Gusmão quando este visitou o nosso país pela primeira vez. Pena que os portugueses não se mobilizem também assim para lutar pela melhoria das suas próprias condições de vida…

 

O livro apresenta vários factos que marcaram a história de Timor, desde a invasão indonésia até à obtenção da independência em 2002. Mas, e ao contrário do que a sinopse deixa supor, é pouco mais do que isso. José Rodrigues dos Santos insere no relato dos factos alguns momentos da vida da sua personagem fictícia, que raramente se entrelaçam satisfatoriamente com a narrativa “jornalística”. Ir para esta leitura à espera de um enredo lateral intrincado resultará, provavelmente, em desilusão. De facto, o problema que tenho com os livros deste autor, a menos conseguida conjugação entre ficção e realidade, é aqui mais notória do que em qualquer outro livro que tenha lido dele. Apesar disso, foi uma leitura que me agradou pelo interesse que tinha em aprofundar conhecimentos sobre a história recente de Timor.

 

Classificação: 3/5 – Gostei

Livro n.º 78 de 2010

 


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.