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[Opinião] A Pousada da Jamaica, de Daphne du Maurier

Autor: Daphne du Maurier
Título Original: Jamaica Inn (1936)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 280
ISBN: 9789722343138
Tradutor: Eduardo Saló
Origem: Comprado

Sinopse: A Pousada da Jamaica é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Marlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.

Opinião: Desde que li Rebecca desta escritora, que se tornou de imediato num dos meus livros preferidos de sempre, fiquei com curiosidade para ler outros livros de sua autoria. Não o tinha feito mais cedo porque me tinha deparado por várias vezes com o comentário de que Rebecca estava muitos furos acima da sua restante obra e, por isso, tinha algum receio de me desiludir. A Pousada da Jamaica já tinha sido publicado em Portugal com o mesmo título pela Editora Livros do Brasil em 1988 (ao que tudo indica, com a mesma tradução da edição da Presença, dado que o nome do tradutor é igual) e, em 1974 pela Edi­tora Clube Por­tu­guês do Livro e do Disco, com o título A Estalagem Maldita. Esta reedição da Presença pareceu-me uma boa oportunidade para colocar os receios de lado e confirmar (ou não) Daphne du Maurier como uma escritora preferida.

Depois do falecimento da sua mãe e de ficar orfã, a jovem Mary Yellan vê-se com poucas alternativas senão pedir asilo à sua tia Patience. No entanto, a carta que recebe desta, após comunicar a morte da mãe, dá o primeiro indício a Mary de que alguma coisa não está bem, pois não parecem haver resquícios da alegre e destemida Patience que Mary conheceu em tempos. Ao viajar para a Pousada da Jamaica, onde Patience vive com o marido, Mary ouve estranhos rumores das pessoas que encontra pelo caminho, acerca de ninguém parar na Pousada devido a boatos de que coisas muito estranhas lá aconteceriam. Ainda assim, com vontade de rever a tia e sem muito mais opções, Mary decide rumar à Pousada.

Uma vez chegada à sombria Pousada da Jamaica, Mary reencontra apenas uma sombra da sua tia Patience, que se tornou numa mulher assustada, submissa e envelhecida. Cedo descobre que a origem desta mudança radical é o seu marido Joss Marly, um homem rude, desbocado e, acima de tudo, assustador. Pouco tempo depois de estar na Pousada, Mary começa a perceber por que motivo as pessoas deixaram de visitar o local, desvendando os segredos que o seu tio esconde e que a tia tanto teme.

A criação de uma “atmosfera ameaçadora e sinistra”, como a sinopse refere, era certamente uma das intenções da autora ao escrever este livro. E, em certa medida, consegue-o, mas a personalidade destemida de Mary ajuda a atenuar esse efeito, uma vez que o leitor vai conhecendo os desenvolvimentos da história segundo a sua perspectiva. Para além disso, cedo percebemos qual era, afinal, o segredo de Joss e mesmo o twist final não era difícil de adivinhar a partir de certa altura do desenrolar da história.

No que se refere às personagens, penso que o tio de Mary terá sido a caracterização melhor conseguida: um homem totalmente mau, repugnante e sem escrúpulos. Apesar de achar que a personagem teria ganho se não fosse tão linear e um vilão tão completo, pareceu-me que, no essencial, a autora consegue transmitir bem a essência de Joss. Já a personagem principal não me cativou particularmente e pareceu-me, por vezes, um pouco incoerente. Ao enredo principal, a autora acrescenta uma história secundária que inclui um interesse romântico para Mary, que, face às suas convicções e personalidade corajosa, acaba por parecer algo inverosímil e pouco convincente.

O melhor que este livro tem é, sem dúvida, a escrita de Daphne du Maurier, apesar de parecer uma versão menos aprimorada do que pude apreciar em Rebecca, que foi publicado dois anos mais tarde. De uma forma sucinta, pareceu-me uma boa ideia em termos de enredo, mas que nem sempre foi pelos caminhos mais interessantes, necessitando também de uma personagem principal mais forte e com a qual o leitor se pudesse identificar.

Uma nota final para a tradução: apesar de, de um modo geral, estar boa, irritou-me solenemente a quantidade absurda de vezes que o tradutor empregou as palavras “conquanto” e “porquanto”. Sendo duas palavras que não leio ou utilizo frequentemente (e acredito que outros leitores estejam na mesma posição que eu), às tantas tornou-se num elemento distractivo pela negativa e contribuiu para diminuir a atenção em relação ao que estava a ler. 

Classificação: 6/10 – Interessante

Livro n.º 67 de 2010


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.