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[Opinião] Um Instante ao Vento, de André Brink

Autor: André Brink
Título Original: An Instant in the Wind (1976)
Editora: Saída de Emergência 
Páginas: 272
ISBN: 9789896372262
Tradutor: Alberto Simões
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Uma mulher branca e um homem negro perdidos na selva do interior sul-africano. Ela é uma mulher educada e totalmente indefesa no meio da selva; ele é um escravo foragido, o elemento mais baixo aos olhos da sociedade do século XVIII. Ambos se conhecem apenas a si mesmos… e vão percorrer um longo caminho de regresso à civilização.

Opinião: André Brink é um conhecido escritor sul-africano, cujo trabalho de ficção é pela primeira vez publicado em Portugal com este Um Instante ao Vento, que fez parte da shortlist para o Man Booker Prize de 1976. A sua obra é conhecida por abordar questões relacionadas com o apartheid, tendo inclusivamente escrito vários dos seus romances em africânder, e simultaneamente em inglês.

O ponto de partida de Um Instante ao Vento é a descoberta de documentos do séc. XVIII, que relatam uma expedição ao interior da África do Sul, empreendida pelo marido da protagonista do livro, Elizabeth Larsson, que também fez parte da mesma. Depois de a expedição ser atacada e de Elizabeth se ver sozinha no meio da selva, os documentos revelam que ela acabou por conseguir voltar à Cidade do Cabo dois anos depois, com a ajuda de um escravo fugitivo, Adam, mas pouco mais se sabe sobre a viagem que empreenderam, para além de algumas frases que Elizabeth deixou e que dão a entender que muito ficou por contar. Não consegui perceber (mesmo após pesquisar) se os documentos referidos são reais ou se apenas consistem num artifício utilizado pelo autor para contar esta história, mas de qualquer modo o que mais importa é o seu conteúdo, e André Brink tenta aqui dar a sua visão do que terá acontecido durante esses dois anos, sobre os quais praticamente não há registos.

Portanto, o livro relata a viagem de Elizabeth e Adam pela meio da natureza sul-africana e do evoluir da sua relação, com todos os preconceitos derivados da segregação racial. É a história de um amor impossível, acerca do qual já sabemos o final desde o início. No entanto, o que importa aqui não é o final, mas o que aconteceu entretanto, e acho que o autor faz um belo trabalho na construção desta viagem (física e emocional).

Ao longo do livro, a história é narrada na primeira pessoa por Elizabeth ou Adam, intercalando com secções na terceira pessoa, que descrevem o seu percurso e o que os rodeia. Esta troca constante permite ao leitor ter a percepção sobre os sentimentos que vão assolando as personagens e todas as dúvidas que carregam consigo. André Brink fá-lo de uma forma muito poética, e este lirismo atravessa todo o livro e imprime-lhe um cunho muito particular. Para além das duas personagens principais, a própria paisagem e natureza sul-africanas são uma personagem por si só, com grande destaque neste livro através de belas descrições, que às vezes pecam um pouco por serem excessivas. Outro aspecto que não considero que tenha sido conseguido a 100% é a verosimilhança de certos acontecimentos presentes na narrativa, mas não foi algo que me tivesse estragado a leitura. Estamos perante um livro que merece, sem dúvida, ser lido.

Classificação: 8/10 – Muito Bom

Livro n.º 55 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.