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[Opinião] Wolf Hall, de Hilary Mantel

Autor: Hilary Mantel
Título Original: Wolf Hall (2009)
Série: Thomas Cromwell #1
Editora: Civilização Editora
Páginas: 672
ISBN: 9789722631044
Tradutor: Beatriz Sequeira
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Inglaterra, década de 1520. Henrique VIII está no trono, mas não tem herdeiros. O cardeal Wolsey é o conselheiro do rei encarregue de obter o divórcio que o papa recusa conceder. Neste ambiente de desconfiança e necessidade aparece Thomas Cromwell, primeiro como secretário de Wolsey, e depois como seu sucessor. Cromwell é um homem muito original: filho de um ferreiro bruto, é um génio da política, um subornador, um galanteador, um arrivista, um homem com uma habilidade incrível para manipular pessoas e aproveitar ocasiões. Implacável na procura dos seus próprios interesses, Cromwell é tão ambicioso nos seus objectivos políticos como nos seus objectivos pessoais. O seu plano de reformas é implementado perante um parlamento que apenas zela pelos seus interesses e um rei que flutua entre paixões românticas e fúrias brutais.
De uma das melhores escritoras contemporâneas, Wolf Hall explora a intersecção de psicologia individual com objectivos políticos. Com uma grande variedade de personagens e uma rica sucessão de incidentes, recua na história para nos mostrar a Inglaterra dos Tudor como uma sociedade em formação, que se molda a si própria com grande paixão, sofrimento e coragem.

Opinião: Wolf Hall, da escritora inglesa Hilary Mantel, venceu o Booker Prize do ano passado, com um género – romance histórico – que não é normalmente distinguido neste tipo de prémios, ainda para mais de uma forma aparentemente unânime. O facto de ter ganho este prestigiado prémio é, à partida, um sinal de que não estamos perante um romance histórico comum, e a sua leitura vem prová-lo. Wolf Hall era o nome da casa dos Seymours (Jane Seymour foi a 3.ª esposa de Henrique VIII), em Wiltshire, mas é também uma alusão ao ditado latino “man is wolf to man“, invocando assim o meio “pantanoso” em que a personagem principal deste livro, Thomas Cromwell, se move.

Já muito se escreveu sobre (e à volta de) Henrique VIII e a sua luta contra a Igreja para conseguir a dissolução do casamento com a sua primeira esposa, Catarina de Aragão. Dentro deste período em particular, já li Duas Irmãs, Um Rei, de Philippa Gregory e, mais recentemente, A Aia da Rainha, de Barbara Kyle; no entanto, a única semelhança entre esses dois e este Wolf Hall é o período histórico em que se situam, porque não só o estilo de escrita é completamente diferente, como este se centra em Thomas Cromwell, um homem oriundo das classes mais baixas e que subiu a pulso, tornando-se um dos homens mais importantes do Reino pela sua influência junto a Henrique VIII.

O livro decorre nas décadas de 20 e 30 do séc. XVI e acompanha o percurso de Thomas Cromwell desde que foge do seu pai tirano, até que aparece como braço direito do cardeal Wolsey e, posteriormente, se torna conselheiro do rei e um dos homens mais influentes do país. Assim, o livro mistura cenas da vida privada de Cromwell com os jogos políticos que vão decorrendo, em boa parte devidos à rebelião de Henrique VIII contra a Igreja (e o Papa Clement, em particular), pela sua vontade de casar com Ana Bolena e conseguir finalmente ter um filho varão que pudesse herdar o seu trono. A precisão da informação histórica aqui presente é notável e deixa adivinhar o grande trabalho de pesquisa de que foi alvo – de facto, aparentemente a autora demorou 5 anos a fazer pesquisa para este livro.

Não é um livro fácil de ler, um page-turner. Isto deve-se essencialmente ao estilo de escrita bastante peculiar de Hilary Mantel, que muitas vezes atinge momentos de grande brilhantismo, mas que, ainda assim, não é muito fácil de acompanhar. Este aspecto, aliado a outras particularidades (como tratar Thomas Cromwell quase sempre por “ele”) exige a constante atenção de quem lê e transforma o livro num desafio contínuo – cabe ao leitor, consoante a sua disposição para este tipo de leituras, não deixar que este desafio passe de intelectualmente interessante para aborrecido. Nem sempre fui com a disposição ideal de cada vez que abria este livro, por isso alguma vezes abordei com menos interesse as frequentes discussões políticas, não raras vezes repletas de subterfúgios e indirectas. Não é um livro que apresente todos os factos, claros como a água: exige que o leitor esteja bastante concentrado e, se possível, que faça algum trabalho de casa (através de pesquisas), para que possa disfrutar em pleno do livro.

O livro não abarca toda a vida de Cromwell, que, como se sabe, também acabou por ser executado, à semelhança de tantas outras pessoas nesta época em particular. O final do livro situa-se pouco antes da condenação de Ana Bolena por traição e da sua execução; não consegui perceber qual foi o objectivo concreto para a escolha deste momento em particular para terminar o livro, mas pelo que sei a autora encontra-se de momento a escrever a sequela de Wolf Hall.

Em jeito de conclusão final: objectivamente, é um livro muito bom e consigo perfeitamente perceber as excelentes críticas de que foi alvo pela crítica especializada; pessoalmente, esperei que me cativasse mais, mas ainda assim foi uma leitura que valeu bastante a pena. 

Classificação: 8/10 – Muito Bom

Livro n.º 41 de 2010


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.