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[Opinião] Livros & Cigarros, de George Orwell

Autor: George Orwell
Título Original: Books v. Cigarettes
Editora: Antígona
Páginas: 184
ISBN: 9789726082125
Tradutor: Paulo Faria
Origem: Comprado

Sinopse: Qual a relação entre livros e cigarros? Como trabalham os críticos literários? Nestes textos, ora curiosos ora graves, mas sempre cativantes, são-nos narradas, por exemplo, as experiências de Orwell como alfarrabista (Memórias de um Livreiro), vemos explicadas algumas das suas posições políticas (Um, Dois, Esquerda ou Direita – O Meu País) e testemunhamos episódios marcantes da infância do autor no colégio St. Cyprian’s (Ah, Ledos, Ledos Dias). Neste último texto, percebemos, enfim, a génese do seu espírito indómito, a sua determinação em resistir à tirania e em manter a dignidade, numa palavra, a certeza de que os fracos têm direito a rebelar-se contra a ordem estabelecida.

Opinião: Para além das suas conhecidas obras de ficção (Mil Novecentos e Oitenta e Quatro ou A Quinta dos Animais), George Orwell foi também um prolífico escritor de ensaios. Alguns deles já se encontravam publicados por cá, também pela Antígona, no livro Porque Escrevo e Outros Ensaios, e este Livros & Cigarros proporciona aos leitores portugueses mais oportunidades para entrar em contacto com a obra deste grande escritor.

Livros & Cigarros é um conjunto de 7 ensaios que versam sobre livros, as profissões de alfarrabista e crítico literário, juntamente com algumas considerações de cariz político e recordações da vida do autor. No primeiro ensaio, que dá o título ao livro, o autor, perante alguém que lhe diz que os livros são caros, decide fazer algumas contas para comparar gastos entre livros e outras leituras e em álcool/tabaco. A conclusão?

… a leitura é um dos passatempos mais baratos que existem – o mais barato de todos, provavelmente, a seguir a ouvir rádio.

Na minha opinião, esta conclusão mantém-se nos nossos dias: de facto, para quem compra muitos livros, o impacto no total das despesas é grande, mas quando comparado com outro tipo de gastos, nomeadamente em entretenimento, reparamos que acaba por não ser tão caro assim. Não faltam situações de pessoas que não lêem com a desculpa que os livros são caros… bem, existem várias alternativas, só não lemos se não quisermos.

Em Memórias de um Livreiro, Orwell recorda a época em que trabalhou num alfarrabista, e faz algumas observações curiosas acerca do tipo de pessoas que frequentavam a loja, os seus hábitos e os livros que liam. Na altura, o autor denotava a fraca popularidade dos clássicos, dos romances americanos e dos contos; com excepção dos segundos, tenho a impressão que a tendência se mantém. Orwell acaba por confessar que, por ter de mentir sobre os livros, lhes ganhou aversão – e que, por isso, a profissão não lhe deixou muitas saudades. Confissões de um Crítico Literário também é excelente, consistindo numa dissertação sobre o trabalho do crítico literário e em como este, à época, era obrigado a escrever recensões sobre livros que não lhe agradam, acabando por tecer-lhe sempre rasgados elogios.

A Prevenção da Literatura é o primeiro ensaio neste livro com um pendor mais político. Versa sobre a liberdade de imprensa, associada à liberdade intelectual, de manifestar opiniões contrárias. O autor demonstra o seu desencanto com a situação da altura (pós-2.ª Guerra Mundial), referindo a opressão do comunismo, que não era referido na imprensa da época. São ainda feitas algumas considerações bastante interessantes sobre a influência do totalitarismo na literatura, demonstrando o autor algum pessimismo face ao futuro da mesma.

Os dois ensaios seguintes, Um, Dois, Esquerda ou Direita – O Meu País e Assim Morrem os Pobres são relatos pessoais de momentos da vida do autor influenciados pela conjuntura inglesa. O primeiro traz recordações da 1.ª Guerra Mundial e da forma como, não tendo participado nesta, influenciou o seu crescimento, no seio de um país que educava os seus jovens para a guerra. O segundo dá uma visão bastante vívida das dificuldades dos menos favorecidos nos hospitais da época, pela falta de condições de higiene e de tratamento igual entre os vários doentes.

O ensaio final, Ah, Ledos, Ledos Dias, que ocupa quase metade do livro, consiste numa memória dos tempos que George Orwell passou no colégio interno de St. Cyprian’s. Este texto foi apenas publicado após o falecimento do autor, devido a instruções do próprio nesse sentido, devido ao cariz pessoal que encerra. De facto, muitas são as reflexões sobre as diferenças de tratamento a que foi sujeito, a neglicência de saúde de higiene, e as dificuldades que teve em perceber que não era ele que estava errado. Orwell faz uma reflexão interessantíssima sobre a influência que a educação tem para o desenvolvimento do adulto, do que custa crescer e aprender a relativizar as coisas.

Se há um traço comum entre todos estes textos, é a clareza de raciocínio e da sua passagem para palavras. Sempre com uma escrita clara e cativante, Orwell consegue quase sempre agarrar o leitor pela precisão das suas conclusões. É inegável o facto de estarmos perante um grande pensador e de uma pessoa muito à frente do seu tempo. Apesar de achar que a leitura deste livro sairá beneficiada com algum conhecimento prévio da vida do autor, julgo que todos estes textos são válidos nos dias que correm, com as devidas adaptações. Gostei bastante. 

Classificação: 8/10 – Muito Bom

Livro n.º 44 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.