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Entrevista a Jacqueline Carey

Friday, February 12, 2010 Post de Estante de Livros

Tal como pro­me­tido, aqui fica a entre­vista que a escri­tora ame­ri­cana Jac­que­line Carey nos deu em exclu­sivo. A entre­vista centra-​se espe­ci­al­mente no seu pri­meiro livro, “O Dardo de Kushiel”, que a Saída de Emer­gên­cia lança hoje. Agra­deço à autora, pela sim­pa­tia e dis­po­ni­bi­li­dade que demons­trou (era fã e agora ainda fiquei mais) e agra­deço tam­bém à Cris­tina Cor­reia, tra­du­tora, que deu uma vista de olhos na minha tra­du­ção e fez algu­mas suges­tões vali­o­sas. Se dese­ja­rem ler a entre­vista ori­gi­nal, podem fazê-​lo aqui.


Estante de Livros — Como sur­giu a ideia de escre­ver “O Dardo de Kushiel”?
Jac­que­line Carey — Uma parte da ins­pi­ra­ção veio da pes­quisa que estava a fazer rela­tiva ao fol­clore dos anjos para um livro de não fic­ção, e outra parte veio de uma via­gem ao Sul de França. Outros aspec­tos foram sim­ples­mente uma dádiva das Musas – como a per­so­na­gem prin­ci­pal, Phèdre.


E.L. – Era sua inten­ção desde o iní­cio escre­ver uma série de livros, ou foi a boa recep­ção que a enco­ra­jou a con­ti­nuar?
J.C. — Deixei o final um pouco em aberto inten­ci­o­nal­mente, e quando arran­jei um agente uma das pri­mei­ras coi­sas que ele disse foi “Escreve uma sequela!”. As ideias para os segundo e ter­ceiro livros vie­ram todas de uma vez, bem como a pos­si­bi­li­dade de con­ti­nuar a série com um pro­ta­go­nista diferente.


E.L. - Gosto muito de ler livros con­ta­dos na pri­meira pes­soa, mas de todos os livros com esta carac­te­rís­tica que li até hoje pro­va­vel­mente metade deles não fun­ci­o­na­ram bem. Uma vez que a voz de Phè­dre é tão única e bem tra­ba­lhada, foi um grande desa­fio? Como é que entrou den­tro da cabeça dela?
J.C. — Muitos escri­to­res con­si­de­ram a voz na pri­meira pes­soa limi­ta­tiva, mas eu gosto de nunca ter de me pre­o­cu­par com mudar os pon­tos de vista. A minha voz lite­rá­ria é natu­ral­mente bar­roca e permiti-​me libertá-​la pela pri­meira vez em “O Dardo de Kushiel”. Quanto a entrar den­tro da cabeça de Phè­dre, acho que isso faz parte do mis­té­rio da cri­a­ti­vi­dade. Nem sem­pre os escri­to­res sabem como faze­mos o que fazemos!


E.L. – Existem mui­tas cenas sexu­ais grá­fi­cas nos seus livros, e mui­tas delas não encai­xam na cate­go­ria “con­for­tá­vel” para a mai­o­ria das pes­soas. Mas nunca fiquei com a impres­são que eram des­ne­ces­sá­rias ou des­lo­ca­das: fazem sen­tido, den­tro da his­tó­ria. Qual é a sua impor­tân­cia? Acha que este aspecto pode afas­tar alguns lei­to­res?
J.C. — Acreditem, pen­sei muito e durante bas­tante tempo acerca do ele­mento eró­tico negro antes de come­çar a escre­ver, por­que sabia que sig­ni­fi­cava cor­rer um grande risco. No fim de con­tas, pen­sei que pode­ria ser uma forma fas­ci­nante de sub­ver­ter mui­tos dos cli­chés “heroína como vítima” que exis­tem na mai­o­ria do nosso entre­te­ni­mento popu­lar. Ten­tei lidar com isto deli­ca­da­mente e certificar-​me de que nenhuma das cenas eram gra­tui­tas e, que eram, de facto, rele­van­tes para o enredo. Ainda assim, sig­ni­fi­cou que não iria atrair jovens lei­to­res! Digo mui­tas vezes aos pais que não, os meus livros não são ade­qua­dos para os vos­sos fãs de treze anos do Harry Potter.


E.L. – Já li mui­tos livros de fan­ta­sia, e penso que uma das coi­sas que tor­nam alguns deles notá­veis é um mundo muito bem cons­truído e pes­qui­sado. Os livros da série Kushiel decor­rem numa Europa Renas­cen­tista remi­nis­cente, com locais bem des­cri­tos e uma mito­lo­gia muito forte. Como é que fez a sua pes­quisa? Visi­tou a Europa e outros paí­ses cujas loca­li­za­ções se asse­me­lham às do seu livro?
J.C. — Visitei pro­va­vel­mente metade dos paí­ses que cubro ao longo dos seis livros da série Kushiel. França, Grã-​Bretanha, Itá­lia, Gré­cia, Egipto: sim. Ale­ma­nha, Espa­nha, Irão, Chi­pre, Rús­sia: não. Gos­tava de poder fazer pes­quisa local para todos eles, mas o tempo e o custo não o per­mi­tem! Pes­quisa lite­rá­ria anti­quada, com muita ajuda da Inter­net, fazem a diferença.


E.L. – A reli­gião repre­senta um papel muito impor­tante nesta pri­meira tri­lo­gia, mas senti que estava bas­tante dis­tante da forma como mui­tas pes­soas enten­dem a reli­gião nos dias que cor­rem. Foi uma forma de enfa­ti­zar o que acha mais impor­tante acerca da fé?
J.C. — Estava inte­res­sada em explo­rar o con­ceito de uma divin­dade cuja único atri­buto divino é o amor, em todas as suas mani­fes­ta­ções. Se tivesse de esco­lher um aspecto da fé a des­ta­car, cer­ta­mente seria esse.


E.L. – Já escre­veu alguns livros fora do mundo Kushiel (Santa Oli­via, série Bane­wre­a­ker), mas con­ti­nua a lá regres­sar (recen­te­mente com Naamah’s Kiss). Está a desafiar-​se a si pró­pria e ao mesmo tempo con­ti­nua a vol­tar a um “porto seguro”?
J.C. — É uma aná­lise cor­recta. Foi cer­ta­mente um desa­fio exa­mi­nar um cená­rio fami­liar atra­vés de um novo olhar, mas adoro o mundo que criei e foi um pra­zer revisitá-​lo. Tam­bém tive a opor­tu­ni­dade de explo­rar mais longe, o que incluiu uma mara­vi­lhosa via­gem de pes­quisa à China.


E.L. – Os seus prin­ci­pais tra­ba­lhos “caem” na cate­go­ria da fic­ção espe­cu­la­tiva. Já con­si­de­rou escre­ver algo fora desse género?
J.C. — Sim, e tal­vez algum dia o faça, mas até agora as minhas melho­res e mais empol­gan­tes ideias estão den­tro desse género.


E.L. – Quais são as suas refe­rên­cias lite­rá­rias (auto­res, géne­ros…)?
J.C. — Leio tudo e mais alguma coisa, de todos os géne­ros. Gosto de fic­ção lite­rá­ria mains­tream, mis­té­rios, thril­lers, para­nor­mal, fan­ta­sia, fic­ção cien­tí­fica, comé­dias. Fic­ção his­tó­rica é uma grande influên­cia lite­rá­ria para mim; os roman­ces da Mary Renault, decor­ri­dos na Gré­cia Antiga, foram os pri­mei­ros livros “adul­tos” que li, e con­ti­nuam a ser os meus favo­ri­tos, tanto pela sua habi­li­dade em recriar o pas­sado, como pela escrita lírica. A frase de aber­tura de “O Dardo de Kushiel” está estru­tu­rada como uma home­na­gem a “The Per­sian Boy”, o pri­meiro livro dela que li.


E.L. – Há algo que queira dizer aos seus pre­sen­tes e futu­ros fãs por­tu­gue­ses?
J.C. — Espero que gos­tem dos livros e que algum dia con­siga acres­cen­tar Por­tu­gal à lista de paí­ses que tive a sorte de visitar!

Célia M.

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Categorias Entrevistas

3 Responses to “Entrevista a Jacqueline Carey”

  1. Vera says:

    Não sou tra­du­tora, nem nada do género. Mas permitam-​me fazer uma pequena obser­va­ção. Em vez de colo­ca­rem “Pes­quisa lite­rá­ria anti­quada” penso que ficava melhor ser ” pes­quisa em livros à boa maneira antiga”.
    Os meus para­béns por terem con­se­guido esta entre­vista e espero que seja a pri­meira de muitas!

  2. Ana C. Nunes says:

    Exce­lente entre­vista, que me dei­xou ainda mais curi­osa quanto ao livro.

  3. Ana says:

    Fiquei ainda mais curi­osa em rela­ção á trilogia!

    obri­gada pela entrevista!


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