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[Opinião] A Lucidez do Amor, de Tânia Ganho

Autora: Tânia Ganho
Editora: Porto Editora
Páginas: 320
ISBN: 9789720042972
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Uns meses depois do 11 de Setembro, Michael Adam, piloto da Força Aérea francesa, é enviado para o Afeganistão no âmbito da luta contra o terrorismo. Passados quatro anos, parte novamente em missão, mas desta vez com plena consciência da natureza letal do seu trabalho. É com o inquietante pressentimento de que poderá não regressar a casa que se despede da mulher, Paula, e do filho recém-nascido. Atirada para um mundo sem homens, Paula é obrigada a tornar-se mãe solteira e a criar laços de amizade com o heterogéneo grupo de mulheres que a rodeia e que vive ao ritmo do toque do telefone – até ao dia em que as linhas ficam mudas…

Baseado em quatro personagens profundamente humanas e complexas – o piloto estranhamente supersticioso com licença para matar, a sua mulher artista e impressionável, a sogra africana, sábia e marcada para toda a vida, e o sogro amargo que carrega um pesado segredo dos seus tempos de guerra na Guiné-Bissau -, A Lucidez do Amor é um romance inquietante e cheio de suspense, que questiona o significado do amor, explorando as diferenças que nos separam uns dos outros, mas que podem também unir-nos irrevogavelmente.

Opinião: Até agora, apenas conhecia o trabalho da Tânia Ganho no que à tradução diz respeito, pelas traduções em A Vida em Surdina (David Lodge), O Mundo Invisível (Shamim Sarif) ou Aquele Verão em Paris (Abha Dawesar), mas desta vez tive oportunidade de ler um trabalho de sua autoria e comprovar que, para além das excelentes traduções, é uma autora que vale a pena conhecer. Este A Lucidez do Amor é o terceiro romance de Tânia Ganho e está disponível nas livrarias a partir de hoje.

Este livro acompanha a vida de um casal, ela portuguesa e ele francês, separado pela guerra no Afeganistão, quando Michael é destacado para uma missão nesse país em conflito, em 2006. A história tem início no dia em que se separam, e cada capítulo marca a passagem de um dia em que ambos desejam que a separação termine. Vamos acompanhando a vida de Paula e do seu pequeno bebé, ela própria “fruto” de uma guerra, uma vez que os seus pais se conheceram quando o pai foi para a Guerra do Ultramar, na Guiné-Bissau. Ao mesmo tempo, vamos tendo alguns vislumbres do que se passa no Tajiquistão, onde se situa a base de Michael. No meio destes relatos, ficamos também a par da história do casal, desde que se conheceram até ao tempo presente.

Apesar da visão dos dois lados da barricada, penso que o livro trata basicamente da visão feminina da guerra. Das mulheres que ficaram e continuam a ficar em casa à espera que os seus maridos regressem de guerras, aparentemente sem qualquer sentido. Porque é em Paula e nas saudades que sente do marido que o livro mais se centra. Mas fala também do (pouco) sentido das guerras actuais, que continuam a destruir países pobres e as vidas das pessoas que lá estão, e do conflito interno dos militares, que lutam contra o facto para fazer aquilo que “devem” por oposição àquilo que está certo.

Gostei muito da voz da autora. Com uma escrita despretenciosa, envolve-nos na história e nos dilemas das suas personagens. Mesmo antes de ler a nota final, onde refere que a guerra do Afeganistão era um tema próximo e doloroso, consegui percebê-lo nas suas palavras ao longo do livro, pela emotividade que delas extravasa. Sinceramente, uma leitura que achei valer bastante a pena. Termino com a transcrição do último parágrafo do livro: uma grande verdade e a explicação do seu título:

Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste.

Classificação: 8/10 – Muito Bom

Livro n.º 4 de 2010


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.