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As Atribulações de Jacques Bonhomme

Monday, November 16, 2009 Post de Estante de Livros

Autor: Telmo Mar­çal
Edi­tora: Gai­li­vro
Pági­nas: 279
ISBN: 9789895576760

Sinopse
O pri­meiro con­tacto com a prosa efi­ci­ente e eco­nó­mica, directa, de Telmo Mar­çal introduz-​nos de, forma ime­di­ata, nas regras do mundo em que vie­mos cair: Esta­mos real­mente na jaula da fera encur­ra­lada, mas eis que, afi­nal, somos nós essa fera.
(…) Há, no entanto, um motivo legí­timo para entrar­mos assim incau­tos: não temos por hábito encon­trar este tipo de prosa esta forma de pen­sar­mos o mundo, na nossa lite­ra­tura por­tu­guesa.
(…) Somos per­fei­tos na cari­ca­tura mor­daz. Mas quando se trata de cons­truir mun­dos raci­o­nais, ainda que fecha­dos e claus­tro­fó­bi­cos como os que aqui encon­tra­rão, de ima­gi­nar uma alter­na­tiva ao nosso pre­sente ou mesmo ao pas­sado his­tó­rico ido­la­trado por este povo (ainda que não passe de uma ver­são expur­gada dos peca­dos come­ti­dos), quando, afi­nal, nos negam o romance das coi­sas não temos grande expe­ri­ên­cia… A nossa fic­ção cien­tí­fica, quando se mani­festa, apropria-​se nor­mal­mente de uni­ver­sos alheios que encon­trara nas lei­tu­ras dos roman­ces estran­gei­ros; quando em raras oca­siões se aven­tura no cami­nho da espe­cu­la­ção social, fá-​lo timi­da­mente ou assente em abor­da­gens sub­jec­ti­vas ou pura­mente pes­so­ais.
(…) em Telmo Mar­çal a opres­são é total, impla­cá­vel, e não há forma de esca­par à inten­si­dade ao que o momento pre­sente nos impede de olhar para o futuro e nos força a sobre­vi­ver, a não ser pela oca­si­o­nal ironia.

Opi­nião
As Atri­bu­la­ções de Jac­ques Bonhomme é um livro de con­tos den­tro de um ambi­ente de fic­ção cien­tí­fica, escri­tos por um autor por­tu­guês que escreve sob o pseu­dó­nimo de Telmo Mar­çal. Com várias his­tó­rias publi­ca­das em fan­zi­nes, web­zi­nes, anto­lo­gias ou mesmo na revista online BANG!, esta é a sua estreia a solo em livros.

Os con­tos deste livro trans­põem os Jac­ques “de todos os tama­nhos, cores e fei­tios” que exis­tem no nosso mundo, para os Jac­ques que exis­tem em mun­dos ima­gi­ná­rios, “naque­les que lem­bram o nosso, em mun­dos que nos ficam dis­tan­tes, e até em alguns que ainda não acon­te­ce­ram”. O ponto comum e trans­ver­sal a todos os con­tos é o con­junto de indi­ví­duos pecu­li­a­res que os pro­ta­go­ni­zam, que vão ten­tando sobre­vi­ver nos mun­dos caó­ti­cos e asfi­xi­an­tes que habitam.

Vários dos con­tos têm um tom e con­texto mar­ca­da­mente dis­tó­pico, decor­rendo em soci­e­da­des futu­ris­tas (ou nem por isso) em que a opres­são de quem tem o poder parece com­pro­me­ter a “nor­mal” vivên­cia dos seres huma­nos. Esta opres­são é um tema recor­rente ao longo des­tas his­tó­rias, fre­quen­te­mente pon­tu­a­das por momen­tos de humor (negro) que fun­ci­o­nam mais ou menos como fal­sos balões de oxi­gé­nio, uma vez que os ambi­en­tes dark que o autor des­creve tomam conta do lei­tor, inde­pen­den­te­mente de tudo o resto.

Gos­tei pra­ti­ca­mente de todos os con­tos, mas os meus pre­fe­ri­dos foram “Os Vir­tu­o­sos”, “O Pico de Hubert” (já publi­cado na anto­lo­gia Por Uni­ver­sos Nunca Dan­tes Nave­ga­dos), “A Ami­zade”, “Os Cofres de Kalv­bard” e “Eu Sou um Carrasco” — podem ler este último na BANG! n.º 5.

Não é nor­mal ver a publi­ca­ção de livros de con­tos em Por­tu­gal, de auto­res por­tu­gue­ses, muito menos no género de fic­ção cien­tí­fica. E, melhor ainda, com qua­li­dade. Para mim, foram várias via­gens por um género que nor­mal­mente não leio, cada uma delas com um sabor espe­cial. Não é um livro fácil de ler ou que possa ser lido por qual­quer pes­soa em qual­quer estado de espí­rito. Mas, se têm von­tade de expe­ri­men­tar uma coisa dife­rente e ori­gi­nal, aqui fica esta suges­tão. Espero que se con­ti­nuem a fazer apos­tas em livros deste género por cá. — Célia M.

8/​10 — Muito Bom

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