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[Opinião] North and South, de Elizabeth Gaskell

Autor: Elizabeth Gaskell
Ano de Publicação: 1854
Editora: Penguin
Páginas: 528
ISBN: 9780140620191
Origem: Comprado

Sinopse: When her father leaves the Church in a crisis of conscience, Margaret Hale is uprooted from her comfortable home in Hampshire to move with her family to the north of England. Initially repulsed by the ugliness of her new surroundings in the industrial town of Milton, Margaret becomes aware of the poverty and suffering of the local mill workers and develops a passionate sense of social justice. This is intensified by her tempestuous relationship with the mill-owner and self-made man, John Thornton, as their fierce opposition over his treatment of his employees masks a deeper attraction. In “North and South”, Elizabeth Gaskell skillfully fused individual feeling with social concern, and in Margaret Hale created one of the most original heroines of Victorian literature.

Opinião: Já anteriormente vos tinha falado deste livro, a propósito de ter visto a adaptação televisiva da BBC, no início do ano, que adorei. Na altura, comprei o livro mas só agora decidi lê-lo, uma vez que a White Lady já o tinha começado e decidimos fazer uma espécie de mini leitura conjunta no fórum (podem também ler a opinião dela sobre este livro aqui).

North and South foi publicado originalmente em 22 partes na revista semanal Household Words, editada por Charles Dickens, entre Setembro de 1854 e Janeiro de 1855, tendo sido publicado em forma de livro ainda durante 1855. A história decorre em meados do século XIX, sendo o título do livro indicativo do tema principal que trata: as diferenças entre o norte e o sul de Inglaterra nessa época, com o norte altamente industrializado, por contraste com o pacífico e solarengo sul.

O livro acompanha a história da jovem Margaret Hale, que se vê deslocada da sua casa no sul, em Helstone, para Milton, no norte, uma vez que o seu pai, um homem da Igreja, se vê perante problemas de consciência quanto ao conteúdo da doutrina que advoga, decide abandonar o seu ofício e deixar para trás a vida que tinham conhecido até então. A família de Margaret instala-se então em Milton, uma cidade do norte bastante industrializada e completamente diferente do local de onde tinha vindo, com grande abundância de fábricas de algodão e com problemas sociais muito graves. O dono de uma dessas fábricas, John Thornton, torna-se aluno do pai de Margaret e apaixona-se por ela, apesar de todas as suas diferenças.

Apesar do destaque dado às personagens e aos seus sentimentos, este é um livro que aborda de forma bastante detalhada as questões sociais que advieram da luta de classes que nessa época começaram a fazer-se sentir mais vigorosamente, por força da evolução das relações entre a classe trabalhadora e a classe empregadora, e que muitas vezes se concretizavam em greves. Margaret torna-se amiga de algumas pessoas de origem mais humilde e toma contacto com as suas dificuldades. Esta característica da personagem foi muito provavelmente influenciada pela experiência pessoal da autora, pois colaborava com várias instituições de caridade.

Acho que, por mais que tente, não vou conseguir exprimir como deve ser o quanto este livro me marcou… mas não custa tentar! As personagens são muito bem construídas e podemos facilmente relacionar-nos com elas, com os seus dilemas e alegrias. Gostei muito das duas personagens principais, mas a minha preferida acabou por ser a mãe de John, Mrs. Thornton, pela personalidade vincada e sinceridade que sempre demonstrou. O enredo é muito bom: a história de amor que a autora nos conta é daquelas que quebram o coração mais duro e que deixam a suspirar a menos romântica das pessoas, mas é, ao mesmo tempo, genialmente entrelaçada com as questões sociais que aborda e com o retrato deste período da história de Inglaterra. Ao longo de todo o livro, assistimos a diálogos extremamente interessantes (muitas vezes entre John e Margaret) que nos permitem perceber todas estas questões e pensar no quanto as coisas evoluíram (ou não) depois de um século e meio. Isto leva a outro aspecto que me fez adorar este livro: Elizabeth Gaskell escreve maravilhosamente. É incrível a forma como ela entrelaça as palavras, como sabe colocá-las no sítio exacto e como, muitas vezes, diz as coisas sem as dizer. É daquele tipo de livros que nos traz a vontade de transcrever inúmeras passagens, mas fico-me por uma que aparece na primeira vez em que Margaret visita a casa dos Thorntons (não contém spoilers). Eis como transformar a descrição da divisão de uma casa na caracterização das pessoas que a habitam:

Everything reflected light, nothing absorbed it. The whole room had a painfully spotted, spangled, speckled look about it, which impressed Margaret so unpleasantly that she was hardly conscious of the peculiar cleanliness required to keep everything so white and pure in such an atmosphere, or of the trouble that must be willingly expended to secure that effect of icy, snowy discomfort. Wherever she looked there was evidence of care and labour, but not care and labour to procure ease, to help on habits of tranquil home employment; solely to ornament, and then to preserve ornament from dirt or destruction.

Para resumir, este livro apresenta, na minha opinião, um equilíbrio perfeito entre enredo, personagens, contexto e escrita. O único defeito que lhe aponto é um final um pouco apressado, mas a própria autora explica que o facto de esta história ter sido originalmente publicada em formato de revista lhe trouxe algumas limitações que nem sempre lhe permitiram desenvolvê-la como gostaria. Mas nada que belisque a minha opinião geral. Dá que pensar o dom que algumas pessoas têm de, apenas com palavras, emocionarem uma pessoa ao ponto de vivermos estas histórias como se fossem reais, tornando a viragem da última página como a despedida de um amigo querido. E encontrar livros que proporcionem este nível de ligação emocional é o objectivo último que me guia nesta busca incessante. Peço desculpa pela extensão desta opinião, mas o entusiasmo é tanto que a minha vontade é ficar aqui o resto do dia a falar deste livro 🙂

Termino esta opinião pedindo encarecidamente que alguma editora se disponha a publicar a tradução desta obra-prima. Não compreendo como é possível que, até hoje, ninguém o tenha feito. O livro é imperdível! Até lá, podem, caso entendam, comprá-lo pela módica quantia de 3€, no Book Depository. Também está disponível online, uma vez que a obra já faz parte do domínio público. E, agora que o li, posso dizer-vos, com toda a sinceridade: a adaptação desta história maravilhosa na mini-série da BBC é muito fiel e consegue transmitir todo o sentimento presente no livro. Escusado será dizer que recomendo vivamente tanto o livro como a sua adaptação. 

Classificação: 10/10 – Obra-Prima


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.