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Rebecca

Friday, March 27, 2009 Post de Estante de Livros
Sinopse: Publi­cado em 1938, Rebecca é tal­vez o romance por que Daphne du Mau­rier é hoje mais lem­brada. Ao lê-​lo entra­mos numa atmos­fera oní­rica, som­bria, ali­men­tada por segre­dos que os códi­gos soci­ais obri­gam a per­ma­ne­cer ocul­tos e que se con­cen­tram na mis­te­ri­osa man­são Man­der­ley. É para esta man­são que a nar­ra­dora, uma jovem humilde, vai viver com o viúvo Maxim de Win­ter, ao acei­tar o seu pedido de casa­mento. Mas então des­co­bre que a memó­ria da fale­cida esposa, Rebecca, se encon­tra ainda viva e que esta era tudo o que ela nunca será. À medida que o enredo se desen­volve, ela terá de rede­fi­nir a sua iden­ti­dade num cená­rio em que os sonhos ame­a­çam tornar-​se pesadelos…


Antes da publi­ca­ção deste livro pela Edi­to­rial Pre­sença, não fazia a mais pálida ideia de quem era a Daphne du Mau­rier ou da his­tó­ria e fama de Rebecca. Aliás, come­cei o livro sem ler a sinopse como deve ser e jul­guei que Rebecca seria o nome da per­so­na­gem prin­ci­pal do livro. Bem, o facto é que não estive muito longe da ver­dade: ape­sar de não ser o nome da nar­ra­dora deste livro (acerca da qual, curi­o­sa­mente ou não, nunca sabe­mos o nome pró­prio), Rebecca é a per­so­na­gem que povoa cada acon­te­ci­mento ou sen­ti­mento pre­sen­tes neste livro.

A nar­ra­dora é uma jovem tímida e humilde que, no iní­cio da his­tó­ria, se encon­tra em Monte Carlo como assis­tente de Mrs. Van Hop­per, uma senhora de idade muito sui gene­ris que tenta tra­var conhe­ci­mento com todas as figu­ras impor­tan­tes que se cru­zam no seu cami­nho. É assim que a jovem conhece Maxim de Win­ter, um homem mais velho que ficou viúvo recen­te­mente, e que rumou a Monte Carlo para apa­nhar novos ares. Os dois rapi­da­mente se enten­dem, che­gando ao ponto em que Maxim pede a mão da jovem em casa­mento e, depois do enlace, rumam à casa de Maxim, em Ingla­terra, a famosa Manderley.

Aí che­ga­dos, o fan­tasma da fale­cida mulher de Maxim — Rebecca — irá revelar-​se em todos os recan­tos da casa e a recente Mrs. de Win­ter vê-​se obri­gada a lutar con­tra esta pre­sença cons­tante, ao ponto de se tor­nar uma ver­da­deira obses­são. A jovem vê a per­feita Rebecca em cada pala­vra ou gesto dos empre­ga­dos, espe­ci­al­mente na assus­ta­dora Mrs. Dan­vers, em cada objecto da casa e flor do mara­vi­lhoso jar­dim, e começa a semear uma mór­bida curi­o­si­dade em rela­ção ao que ver­da­dei­ra­mente acon­te­ceu a Rebecca. O pró­prio Maxim parece alhe­ado de tudo e Mrs. de Win­ter começa a achar que o casa­mento dos dois foi um erro.

Não vou desen­vol­ver mais o enredo, por­que iria entrar em spoi­lers, mas posso afir­mar que a his­tó­ria se torna tudo menos pre­vi­sí­vel. Rapi­da­mente nos vemos enre­da­dos de tal forma no livro que é muito com­pli­cado colocá-​lo de lado e ir fazer outras coisas.

Ape­sar da his­tó­ria muito inte­res­sante e bem urdida, o maior trunfo deste livro é a forma como está escrito. É sim­ples­mente sublime, a todos os níveis, seja na cons­tru­ção das per­so­na­gens (mais difí­cil ainda por­que, recordo, a his­tó­ria é con­tada na pri­meira pes­soa), seja na cri­a­ção do ambi­ente obs­curo e, por vezes, assus­ta­dor, de Man­der­ley — ela pró­pria uma per­so­na­gem da his­tó­ria -, seja pela forma genial como a evo­lu­ção psi­co­ló­gica de Mrs. de Win­ter nos é rela­tada pela sua pró­pria voz. A nar­ra­tiva é ainda povo­ada de peque­nos momen­tos, peque­nos alhe­a­men­tos da rea­li­dade, que tanto aprecio.

Por vezes, esta­mos muito bem no nosso can­ti­nho e as coi­sas apa­re­cem e mexem con­nosco de uma forma pouco pre­vi­sí­vel. Para mim, este livro foi um des­ses casos: sem eu per­ce­ber muito bem como, o livro enredou-​me na sua teia, fez-​me via­jar até Man­der­ley, fez-​me per­cor­rer as divi­sões daquela casa e pas­sear naque­les jar­dins, fez-​me sen­tir que estava den­tro da his­tó­ria desde o pri­meiro momento até ao final. Fez-​me ansiar pelo que ia acon­te­cer e tam­bém temer pelas per­so­na­gens como se de ami­gos se tra­tas­sem. É por isso que o con­si­dero um dos melho­res livros, não só que li nos últi­mos tem­pos, mas que alguma vez tive o pra­zer de ler. — Célia M.

10/​10 — Obra-​prima

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20 Responses to “Rebecca”

  1. Beh says:

    Li Rebeca há muitps, mui­tos anos. Nem sei onde pára o livro… Quando vi que o esta­vas a ler fiquei curi­osa com o que acha­rias, pois foi um dos livros mais mar­can­tes que li. Ainda bem que gos­taste. Vou rele-​lo bre­ve­mente, mas acho que vou ter de com­prar esta edição.

  2. Lili says:

    Infe­liz­mente não temos ele tra­du­zido por aqui =/​
    Mas fica ano­tada a suges­tão. Ainda mais pela sua exce­lente ava­li­ção!!
    Obri­gada :D

    Bjs

  3. Livros e Outras Coisas says:

    Ía pre­ci­sa­mente fazer uma pos­ta­gem sobre este livro quando vi que estava a ser lido. :) Espe­rei.
    Eu gosto bas­tante de Daphne du Mau­rier e da atmos­fera que cria. Esta obra foi adap­tada ao cinema por Alfred Hit­ch­cock e, mais recen­te­mente, che­gou aos nos­sos écrans sob forma de tele­no­vela (“A Suces­sora”). São dois bons tra­ba­lhos.
    Quanto à autora, a minha pre­fe­rên­cia alarga-​se à Pou­sada da Jamaica, que recria os ambi­en­tes ter­rí­fi­cos da pira­ta­ria e pilha­gem de náu­fra­gos atraí­dos à costa da Cor­nu­a­lha de forma enge­nhosa. Tam­bém esta obra foi levada ao cinema.
    Boa esco­lha, Cano­chi­nha! :) Gos­tei. :)

  4. Paula says:

    A tua opi­nião fez-​me ficar bas­tante curi­osa. Parece muito bom mesmo!
    Vou colocá-​lo na minha lista de com­pras :)

  5. Canochinha says:

    Beh, gos­tei mesmo muito. Quanto a esta edi­ção, achei a tra­du­ção muito boa ;)

    Lili, se che­ga­rem a tra­du­zir o livro por aí, com­pra por­que vale muito a pena!

    Livros e Outras Coi­sas, andei a pes­qui­sar um pouco e repa­rei que existe real­mente um filme do Hit­ch­cock que inclu­si­va­mente ganhou o Óscar para Melhor Filme. Ape­sar de não ser fã de fil­mes anti­gos, fiquei com curi­o­si­dade para ver :) Em rela­ção a outras obras da autora, há mais tra­du­zi­das em por­tu­guês? Isso não che­guei a pesquisar.

    Paula, acre­dita que é uma óptima esco­lha ;)

  6. Sofia Afonso says:

    Depois da tua opi­nião entu­siás­tica fiquei com muita von­tade de ler o livro.
    Nunca tinha ouvido falar dele e, ape­nas pela sinopse, tal­vez não o achasse sufi­ci­en­te­mente inte­res­sante.
    Neste fim de semana irei sem dúvida procurá-​lo a uma livraria!

  7. Cristina says:

    Afi­nal, este livro, que me iria pas­sar ao lado, tem obri­ga­to­ri­a­mente de ser lido. Parece extra­or­di­ná­rio e des­per­taste a minha curi­o­si­dade. Gosto des­tas his­tó­rias que são capa­zes de nos sur­pre­en­der e viciar :)

  8. Francisco Norega says:

    Bem, deixaste-​me mesmo curi­oso :P

    Boas lei­tu­ras e, se alguma de vocês esti­ver inte­res­sada, passe pela Livra­ria Trama hoje, às dez e meia da noite, e assista a uma exce­lente ses­são de poe­sia sonora. Podem ver o meu post aqui. ;)

  9. Miar à chuva says:

    Este livro é con­si­de­rado por grande parte das minhas ami­gas como o seu “livro favo­rito”. Tal­vez por causa deste rótulo ainda não li este livro com receio de me poder desi­lu­dir ou tal­vez por o ler uma época má, não sei expli­car…
    O que é certo é que ele con­ti­nua na estante, numa edi­ção bem velhi­nha.
    Tal­vez a ler nes­tas férias da Pás­coa, quem sabe?

    San­dra do Blog Vidas Desfolhadas

  10. Cristina says:

    Fran­cisco, obri­gada pelo con­vite, da minha parte. Mas, pri­meiro, acho que tenho de apre­ciar poe­sia antes de enve­re­dar por uma ses­são assim :)

  11. Francisco Norega says:

    Como pode­rás ter visto no post do meu blog, eu estive a ver os ensaios no fim-​de-​semana passado.

    Se pude­res ir, não per­cas a opor­tu­ni­dade. Até por­que aquilo é como um con­certo, e não um reci­tal de poe­sia. Mas tem música muito fora do comum (a per­for­mance tem 6 par­tes, umas mais “agres­si­vas” e outras mais sua­ves, quase como se fosse música clás­sica).
    E tal­vez nos pudés­se­mos conhe­cer :) Se pude­res, apa­rece, a sério. É arre­ba­ta­dor :P

  12. Menphis says:

    É por isso que sou a favor de mui­tos fil­mes base­a­dos em fil­mes, quando muito dão a conhe­cer ao público gran­des obras. Neste caso, um mes­tre do cinema deu a conhe­cer esta obra, cuja curi­o­si­dade em ler aumen­tou gran­de­mente com as cri­ti­cas que tenho lido.

  13. Menphis says:

    Eu que­ria dizer fil­mes base­a­dos em livros. Isto de escre­ver à pressa é no que dá :)

  14. Livros e Outras Coisas says:

    Há, de facto, mais livros da autora tra­du­zi­dos, mas à espera de ree­di­ção. Creio que A Pou­sada da Jamaica per­ma­nece esgo­tado.
    Há mais títu­los por cá, como: Aquele Inverno em Veneza ou Apai­xo­na­dos. :)

  15. Canochinha says:

    Obri­gado pelas dicas, vou inves­ti­gar :)

  16. Anonymous says:

    Cano­chi­nha:
    Li este livro há mui­tos anos, per­ten­cia à minha mãe e curi­osa com o título resolvi ler e ado­rei. Existe a con­ti­nu­a­ção do romance, mas foi escrito por Susan Hill e intitula-​se Mrs. de Win­ter da Edi­ção Livros do Bra­sil.
    Reco­mendo da mesma autora: A Casa da Praia, Mary Anne, A Prima Raquel e a Pou­sada da Jamaica, sendo este último o meu pre­fe­rido. Estão todos publi­ca­dos pela Edi­ção Livros do Bra­sil.
    Cano­chi­nha se tive­res tempo para as tuas lei­tu­ras reco­mendo pes­so­al­mente Pás­sa­ros Feri­dos de Col­len McCul­logh.
    Suzan

  17. Canochinha says:

    Suzan, obri­gado pelas dicas! Não fazia ideia que esta autora já tinha tan­tos livros publi­ca­dos por cá, mas é muito bom sinal :)

    Quanto ao livro “Pás­sa­ros Feri­dos”, li-​o no ano pas­sado e curi­o­sa­mente tam­bém levou da minha parte a nota máxima :) Se qui­se­res, podes ver a minha opi­nião aqui: http://​estante​-de​-livros​.blogs​pot​.com/​2​0​0​8​/​0​8​/​p​s​s​a​r​o​s​-​f​e​r​i​d​o​s​.​h​tml

  18. Miss Alcor says:

    Que fixe!!!!
    Li este livro há pelo menos 7/​8 anos, e ado­rei!
    É um daque­les que per­ten­cem à bibli­o­teca do meu pai, e que que­ria ler desde que era peque­nita.
    É real­mente um grande livro.
    Foi escrita uma sequela, por uma outra escri­tora (Susan Hill) cha­mada Mrs​.de Win­ter, das edi­ções livros do bra­sil.
    Tenho-​o aqui em casa, mas não sei porquê nunca o con­se­gui ler!

  19. Madrigal says:

    Cano­chi­nha, lê — se ainda não o fizeste — a Jane Eyre da Char­lotte Brontë, de cer­teza que vais gos­tar. A his­tó­ria tem algu­mas seme­lhan­ças com esta. A Daphne Du Mau­rier era admi­ra­dora da Char­lotte Brontë e das suas irmãs.
    Já agora uma curi­o­si­dade, a Jane Eyre foi adap­tada ao cinema em 1944 — uma das mui­tas adap­ta­ções que teve– a actriz (Joan Fon­taine) que fez o papel da Jane é a mesma que no filme do Hit­ch­cock inter­preta a segunda Mrs de Winter.

  20. Canochinha says:

    Madriga, de facto ainda não li o “Jane Eyre”, mas tenho-​o em casa na minha extensa pilha de livros por ler :)
    Quanto a essa curi­o­si­dade, não fazia a mínima ideia!


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