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Fahrenheit 451

Thursday, January 15, 2009 Post de Estante de Livros
Ima­gi­nem um mundo onde ter um livro é um crime e onde a fun­ção dos bom­bei­ros é queimá-​los. Onde “pen­sar” e “ima­gi­nar” são vis­tos como coi­sas inú­teis. Onde todas as pes­soas são iguais, vêm os mes­mos pro­gra­mas na tv e onde todos têm a ilu­são de serem felizes.


É este cená­rio que nos apre­senta o livro Fah­re­nheit 451, uma das obras mais conhe­ci­das na cate­go­ria da dis­to­pia, onde se inse­rem igual­mente 1984 (George Orwell), Admi­rá­vel Mundo Novo (Aldous Hux­ley) ou A Laranja Mecâ­nica (Anthony Bur­gess). Fah­re­nheit 451 foi publi­cado pela pri­meira vez em 1953, como forma de crí­tica à soci­e­dade norte-​americana da época. O título do livro refere-​se à tem­pe­ra­tura, em graus Fah­re­nheit, a que os livros ardem por completo.


A his­tó­ria apresenta-​nos o bom­beiro Guy Mon­tag, que, tal como todos os outros, tem a ilu­são de ser feliz. Até que conhece a jovem Cla­risse, que é uma rapa­riga dife­rente de todas as outras pes­soas, que pensa por ela pró­pria e que gosta de obser­var as peque­nas mara­vi­lhas da natu­reza. Cla­risse é o pre­texto para acor­dar a semente de liber­dade que Mon­tag tinha den­tro de si. e que o vai levar numa cru­zada con­tra o sis­tema implan­tado, cujo este­reó­tipo de cida­dão se mate­ri­a­liza, por exem­plo, na sua esposa Mil­dred, mais uma ove­lha no reba­nho, com­ple­ta­mente fútil e desinteressada.

Para­le­lis­mos com os dias de hoje? Mui­tos! Mas aqui vou dar voz a um excerto de uma exce­lente crí­tica de Jorge Can­deias a este livro, que repre­senta na per­fei­ção aquilo que penso:

Fah­re­nheit 451 é um livro que começa a tornar-​se antigo, e pelos padrões da FC é deci­di­da­mente velho. Mas lê-​lo no Por­tu­gal de hoje é arre­pi­ante. Basta ligar o botão do tele­co­mando e olhar cinco minu­tos para aquilo que a tele­vi­são nos apre­senta todos os dias, para o lixo tele­vi­sivo que invade milhões de lares dia­ri­a­mente, neste país e nos demais, para aquela imensa pro­mo­ção da igno­rân­cia e da estu­pi­dez, dis­far­çada do prag­ma­tismo capi­ta­lista que busca ape­nas o lucro. Depois de ler, hoje em dia, este velho livro de Brad­bury, é impos­sí­vel não ver­mos à nossa volta os milhões de Mil­dreds que enchem as nos­sas ruas, dema­si­ado fra­cas para enfren­tar a com­ple­xi­dade do mundo que as rodeia, refugiando-​se em tele­no­ve­las, con­cur­sos, big-​brothers e demais pro­gra­mas de vida fal­si­fi­cada em directo, fute­bóis e tele­jor­nais de um jor­na­lismo que, no lugar de infor­mar, as mais das vezes desinforma.


E os livros não são quei­ma­dos, mas são dei­xa­dos a ganhar pó nas pra­te­lei­ras das livra­rias, com excep­ções que mui­tas vezes são, tam­bém elas, veí­cu­los pro­mo­to­res de igno­rân­cia e incul­tura, fazendo dos livros mais um dos ins­tru­men­tos ao ser­viço dos “bom­bei­ros” do mundo real, ins­tru­men­tos bem mais sub­tis que os usa­dos no mundo inven­tado por Brad­bury. Sim, Brad­bury não pre­viu o futuro nos seus míni­mos deta­lhes, mas ape­sar disso Fah­re­nheit 451 é um ter­rí­vel espe­lho dos tem­pos que vive­mos. Um livro intem­po­ral. Um livro que fica.

Um con­se­lho: leiam este livro!! — Célia M.

9/​10 — Exce­lente

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28 Responses to “Fahrenheit 451”

  1. Cristina says:

    Parece-​me um livro bas­tante inte­res­sante pela visão crí­tica que nos apre­senta da rea­li­dade que nos rodeia. Acei­ta­mos tudo, vemos tudo tal como nos dizem que é, mas pou­cos se pre­o­cu­pam o que é, de facto, A rea­li­dade. Exce­lente crítica!

  2. Alice says:

    Mais uma vez, exce­lente cri­tica. Já tinha dado uma olha­dela ao livro (tenho em casa toda a colec­ção do público mas ainda não os li todos) e paraceu-​me bas­tante inte­res­sante. Depois do que escre­veste hoje acho que em breve lhe pega­rei. De facto, a rea­li­dade dos nos­sos dias é, infe­liz­mente, esta. A Huma­ni­dade tornou-​se um reba­nho deslocando-​se e agindo segundo a von­tade de uns quan­tos (pou­cos) “pas­to­res”, sem con­tes­tar, sem reflec­tir, sem ques­ti­o­nar e, sobre­tudo, sem von­tade de ver aquilo em que se transformou.

  3. Canochinha says:

    Alice, acon­se­lho viva­mente. Ainda por cima, é um livro que se lê num ins­tan­ti­nho por­que só tem cerca de 150 pági­nas. É caso para dizer: pou­cas pági­nas, mas muito conteúdo.

  4. Marcelina Gama says:

    Li-​o ainda nova, tal­vez ainda um pouco verde para o absor­ver na ínte­gra, mas adoro-​o. Está entre os meus melho­res livros lidos de sem­pre. E já na altura acheio fantástico.

    Acho-​o mesmo muito inte­res­sante e com uma men­sa­gem tão intensa que me fascina.

    Gos­tei do que escre­veste sobre o livro. :D

  5. Canochinha says:

    Que­ria fri­sar (por­que não tenho a cer­teza que todos tenham per­ce­bido) que o texto que está a itá­lico não é de minha auto­ria ;)

  6. Filipe de Arede Nunes says:

    Fiquei muito curi­oso em rela­ção a este livro. Vamos ver se o encontro.

    Cum­pri­men­tos,
    Filipe de Arede Nunes

  7. Patricia says:

    Sem dúvida, despertaram-​me a aten­ção… vou ten­tar ler este livro num futuro pró­ximo :-)

  8. Canochinha says:

    Filipe, a minha edi­ção é a da ima­gem, da colec­ção Mil Folhas do Público. Mas julgo ser rela­ti­va­mente fácil de encon­trar, bem mais que o “Admi­rá­vel Mundo Novo” ou “A Laranja Mecâ­nica”, cujas últi­mas edi­ções estão esgotadas.

  9. Mónica says:

    Mais um para adi­ci­o­nar à Lista :D

  10. Projecto /Lê/ says:

    Olá! Vimos fre­quen­te­mente ao vosso blog pelo comum inte­resse da lei­tura. Somos alu­nos do 12º ano de esco­la­ri­dade e na dis­ci­plina de Área de Pro­jecto esta­mos a desen­vol­ver curi­o­sa­mente (ou não) o tema da lei­tura e da sua impor­tân­cia. Temos um blog e vie­mos assim divulgá-​lo, espe­rando suges­tões não só para o blog mas tam­bém para várias ini­ci­a­ti­vas que pos­sa­mos even­tu­al­mente orga­ni­zar de acordo com o projecto.

    Obri­gada.

    Boas lei­tu­ras!

    Pro­jecto /​Lê/​

  11. Canochinha says:

    Os meus para­béns pela ideia do pro­jecto! Quem senão os jovens poderá per­pe­tuar o inte­resse pelos livros e por tudo o que os rodeia? Irei seguir o vosso blog com aten­ção :)

  12. Maria Manuel says:

    Li este livro já há alguns anos e achei-​o fan­tás­tico, melhor ainda que o 1984 que é do mesmo autor. Lembro-​me que na altura me foi reco­men­dado por um pro­fes­sor na facul­dade com quem falá­va­mos de lei­tu­ras diver­sas vezes. Real­mente é um livro que deve ser lido por qual­quer amante de lite­ra­tura, mesmo que não gos­tem assim tanto do género lite­rá­rio em que ele se encon­tra inserido.

  13. Canochinha says:

    Maria, só uma pequena cor­rec­ção: 1984 é do George Orwell enquanto que este Fah­re­nheit 451 é do Ray Brad­bury. Inde­pen­den­te­mente disso, são 2 gran­des livros :)

  14. t i a g o . says:

    Exce­lente crí­tica, e deu-​me a von­tade de o ler (tal­vez o faça). De facto, a soci­e­dade está muito ape­gada aos este­reó­ti­pos… temos que nos largar…

    tiago

  15. tulisses says:

    Tam­bém já li este livro há uns anos, quando saiu na colec­ção Mil Folhas. Pequeno (de pági­nas, só), mas muito inte­res­sante, e não só para quem gosta de livros e não tem dúvi­das sobre a sua impor­tân­cia. E é uma dis­to­pia, tal como Admi­rá­vel Mundo Novo e 1984, outros dois gran­des livros (ainda não li Laranja Mecâ­nica). E mui­tas pon­tes se podem esta­be­le­cer entre eles, mas todos valem por si.

    E vais muito bem lan­çada no teu desa­fio de leitura!

  16. Miss Alcor says:

    Bem, até fiquei com comi­chão na ponta dos dedos!!!
    Cla­ra­mente indispensável!!!

  17. Miss Alcor says:

    PS– Tu andas impa­rá­vel… 15 dias e já tan­tos livros lidos!!!
    (Espero que tenhas dor­mido um boca­dito pelo cami­nho! ;) )

  18. Canochinha says:

    Sim, durmo e muito bem!
    E o quarto está para ser ter­mi­nado hoje :D

  19. Menphis says:

    Dos 4 livros refe­ri­dos ape­nas não li o ” A Laranja Mecâ­nica” e todos eles são clás­si­cos que, em cer­tas altu­ras da nossa vida, deve­ría­mos ler obri­ga­to­ri­a­mente. E pro­cu­rar que os outros o lêem, é isso que a Cano­chi­nha e o Jorge Can­deias fazem. com as suas cri­ti­cas. Já agora da mesma autora ” A morte é um acto soli­tá­rio” é um livro sem com­pa­ra­ção, para pior, do que este. ” o homem ilus­trado” é bom mas não con­se­gue atin­gir a geni­a­li­dade, e a visão, deste.

  20. bauny says:

    Como sem­pre aguçaste-​me o ape­tite… deve ser muito bom este livro!!

  21. Menphis says:

    já agora, e como esta­mos a falar de fic­ção cien­ti­fica e o blog é muito lido, alguém me pode aju­dar numa ques­tão que tenho à muito tempo: será que existe uma edi­ção em livro de uma das melho­res, a minha favo­rita, séries de fic­ção cien­ti­fica: ” o Pla­neta dos Maca­cos” ? alguém sabe de alguma edição ?

  22. Menphis says:

    Ajudaste-​me pois. Obri­gado, agora tenho ver se corro um ou outro alfar­ra­bista para ver se o encon­tro. Mas, pelo menos, agora sei o nome, obrigado.já agora aqui fica o con­se­lho a todos de verem os mara­vi­lho­sos filmes.

  23. Brown-eyed Girl says:

    Por acaso nunca li este livro, mas conheço bem a his­tó­ria por­que foi feito um filme, por sinal exce­lente, base­ado na mesma obra, rea­li­zado por Fran­çois Truf­faut.´
    É sem­pre um bom com­ple­mento :)

  24. Francisco Norega says:

    Não é por nada, mas tenho a sen­sa­ção que este ano vou cor­rer os clás­si­cos (quase) todos. :P

    Aguçaste-​me a curi­o­si­dade ;)

  25. Pipas says:

    aqui está uma das minhas mai­o­res fal­tas a nível lite­rá­rio!!!
    Infe­liz­mente nunca o li e tanto que já ouvi falar dele…
    Tenho mesmo de o ler!!
    Fiquem bem

  26. Thays says:

    Li esse livro há pre­ci­sa­mente um ano. Veio na hora certa, em meio uma crise de uma pro­fes­sora da área de huma­nas… O livro nos mos­tra, além de vários aspec­tos já cita­dos, como o conhe­ci­mento téc­nico e ins­tru­men­tal nos deixa em falta com mui­tas refle­xões.
    Real­mente é um livro extre­ma­mente válido.
    Reco­mendo um livro bra­si­leiro que segue a linha das dis­to­pias: “Não verás país nenhum” de Igná­cio de Loyola Brandão

  27. Pedro says:

    Parece-​me ser um bom livro =9 Eu ado­rei 1984, e tam­bém gos­tei muito de ler Admi­rá­vel Mundo Novo, foram livros muito bons, por isso este deve ser uma delí­cia! Lê-​lo-​ei este ano quase de certeza!


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