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[Opinião] Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy

Autor: Cormac McCarthy
Título Original: Blood Meridian (1985)
Editora: Biblioteca Sábado
Páginas: 279
ISBN: 9788461257270
Tradutor: Paulo Faria
Origem: Comprado 
Sinopse: Meridiano de Sangue baseia-se em acontecimentos históricos ocorridos na fronteira entre os EUA e o México em meados do séc. XIX. O autor subverte as convenções do romance e a mitologia do «Oeste Selvagem» para narrar a violência da expansão americana, através da personagem do juiz Holden, que nunca dorme, gosta de dançar, viola crianças dos dois sexos e afirma que não há-de morrer.

Opinião: Este é o segundo livro que leio do escritor norte-americano Cormac McCarthy, depois de A Estrada, do qual que gostei muito. A leitura deste segundo livro foi proporcionada pela excelente colecção de livros da revista Sábado e pelo facto de termos escolhido este livro para a primeira Leitura Conjunta do nosso fórum. Este factor contribuiu grandemente para a perspectiva e a opinião que agora tenho do livro, depois de o ter terminado. A leitura tornou-se muito mais rica e fez com que mais facilmente conseguisse apreender conceitos, ideias e subterfúgios presentes ao longo do livro.

Mas vamos ao que interessa. Este livro recua ao séc. XIX americano, época de grande violência na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Desde o início do livro, acompanhamos um rapaz (do qual nunca sabemos o nome), que durante a sua adolescência se junta a um bando que irá praticar actos de extrema violência, principalmente, mas não só, contra os Apaches. Grande parte do livro centra-se nos caminhos percorridos por este grupo, numa paisagem extremamente adversa.

Este livro está repleto de passagens muitíssimo violentas, não recomendáveis a estômagos mais fracos. A sensação que nos percorre ao ler essas linhas é a de devastação total não só pela descrição em si, mas por pensarmos que coisas destas realmente aconteceram. O livro foca-se em vários temas, desde a religião (não raras vezes o leitor depara-se com igrejas em ruínas, normalmente com a presença de abutres – impossível não olhar para isto como uma metáfora), ao racismo, terminando naquele que para mim é o tema principal, a violência, e a forma como se perpetra independentemente do local ou época para a qual olhemos. Aliás, basta repararmos nos acontecimentos dos dias que correm para percebermos que, apesar de mais contida, a violência continua a manifestar-se sob as mais diversas formas.

A grande personagem deste livro é o Juiz Holden, que faz parte do bando que referi inicialmente. Apesar do epíteto, nunca chegamos a perceber muito bem do que é ele Juiz. Aliás, toda esta personagem é um verdadeiro mistério. Uma figura com mais de dois metros, sem um único pêlo no corpo (como é referido inúmeras vezes), é extremamente culto, na medida em que sabe falar inúmeras línguas, tem conhecimentos nos mais vastos campos, dança lindamente, toca instrumentos musicais… Enfim, toda uma panóplia de capacidades. Faz-se também acompanhar de um caderninho onde anota todos os factos interessantes relativos à fauna e à flora.

Mas, a par destas excelentes capacidades, trata-se também de uma personagem sem escrúpulos. Mata sem remorso e acha-se um Deus que domina todos os seres vivos na Terra, um Deus que não morre. É, sem margem para dúvidas, uma das personagens mais interessantes com que me deparei num livro. Misterioso, cativante, interessante… Sempre que aparece, o Juiz Holden “rouba” o livro para si.

Por fim, algumas considerações em relação à escrita. Cormac McCarthy escreve de uma forma muito densa, com diálogos no meio de parágrafos e constantes enumerações (perde-se a conta às vezes em que aparece a palavra “e”). Este estilo exige uma atenção por parte do leitor a rondar os 100%, sob pena de se perder no meio da leitura. Confesso que por vezes me foi difícil prosseguir, precisamente pela dificuldade que nos é imposta… à semelhança das dificuldades que o bando encontra ao atravessar o deserto. Na grande maioria das vezes, a escrita é dura, seca e implacável, mas a espaços poética, especialmente nas descrições da paisagem. Não é fácil nos habituarmos ao estilo, mas uma vez que o alcancemos é muito difícil não apreciar esta leitura.

Uma nota final para a excelente tradução de Paulo Faria.

Classificação: 8/10 – Muito Bom


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.