A Estrada
Monday, January 14, 2008 Post de Estante de Livros
A estrada encontrava-se deserta. Mais abaixo, no pequeno vale, a linha sinuosa de um rio, estagnado e cinzento. Imóvel e de contornos bem precisos. Ao longo da margem, uma amálgama de juncos mortos. Está tudo bem contigo?, perguntou. O rapaz fez que sim com a cabeça. E então puseram-se os dois a caminhar no asfalto sob a luz metálica, cinzento-azulada, a arrastar os pés na cinza, e cada qual era o mundo inteiro do outro.“A Estrada”, do norte-americano Cormac McCarthy, conta a história de um pai e um filho que percorrem a América num cenário pós-apocalíptico. Tudo está reduzido a cinzas (palavra e tonalidade repetida continuamente ao longo da história – como aliás podem comprovar no pequeno excerto que transcrevi), poucos seres vivos sobrevivem e a viagem de ambos acaba por se revelar um verdadeiro hino à coragem e à resistência.
Para mim, este livro foi um caso típico de “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Seja pela escrita, pelo tom da narrativa ou pela própria apresentação do texto (as falas não estão assinaladas com travessões e por vezes aparecem no meio da narrativa), demorei um bocado a entrar na história. Esta, à semelhança do cenário que as personagens principais enfrentam, é nebulosa e a forma como o escritor a conta deixa largo espaço à imaginação de quem a lê. Seja porque os lampejos do passado que atormenta o pai são descrições vagas, seja porque o leitor nunca chega a saber o que originou a devastação total ou mesmo o nome das personagens principais. E, no final de contas, este facto acaba por jogar a seu favor.
Às tantas, damos por nós a viver o medo, o frio e o cansaço das personagens. Torcemos para que elas não cedam ao desespero. E ficamos emocionados com o amor e o carinho que perpassam nos diálogos (e nos silêncios) entre pai e filho. O que eu sei é que, no final, gostava de ter continuado… e não pode haver melhor sinal que esse. – Célia M.
PS: Está a ser preparada uma adaptação cinematográfica deste livro. O filme ainda se encontra em fase de pré-produção e parece que o pai vai ser interpretado por Viggo Mortensem… Que venha daí esse filme!
Para mim, este livro foi um caso típico de “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Seja pela escrita, pelo tom da narrativa ou pela própria apresentação do texto (as falas não estão assinaladas com travessões e por vezes aparecem no meio da narrativa), demorei um bocado a entrar na história. Esta, à semelhança do cenário que as personagens principais enfrentam, é nebulosa e a forma como o escritor a conta deixa largo espaço à imaginação de quem a lê. Seja porque os lampejos do passado que atormenta o pai são descrições vagas, seja porque o leitor nunca chega a saber o que originou a devastação total ou mesmo o nome das personagens principais. E, no final de contas, este facto acaba por jogar a seu favor.
Às tantas, damos por nós a viver o medo, o frio e o cansaço das personagens. Torcemos para que elas não cedam ao desespero. E ficamos emocionados com o amor e o carinho que perpassam nos diálogos (e nos silêncios) entre pai e filho. O que eu sei é que, no final, gostava de ter continuado… e não pode haver melhor sinal que esse. – Célia M.
PS: Está a ser preparada uma adaptação cinematográfica deste livro. O filme ainda se encontra em fase de pré-produção e parece que o pai vai ser interpretado por Viggo Mortensem… Que venha daí esse filme!
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A sinopse parece-me bastante interessante, mas não sei se ia ter a tua capacidade de levar o livro até ao fim, se o estranhasse… Parece-me uma história interessante.
Parece-me um livro um bocado “dark”! Não ando para aí virada propriamente dito, mas a tua crítica/opinião levaram-me, no entanto, a ficar um pouco curiosa acerca deste livro.
É sim senhor um livro negro, mas eu acrescento, maravilhoso negro.
Para mim, foi o livro que mais incomodou ler no ano passado. E eu digo incomodou, porque foi um livro que me fez pensar, que me fez entusiasmar,e que saberia bem continuar. Quero ler mais Mccarthy, vai estrear” O meu país não é para velhos” e estou ansioso por ver o filme e ler o livro. Quanto ao filme da ” A Estrada” não sabia que era o Viggo o escolhido para o filme, fico muito feliz, venha ele.
PS. Agora vou meter-me contigo :lembras-te de um dia dizeres na Constelação ” não gostavas muito de livros alternativos” ? Este é um livro completamente alternativo, e sabes porquê gostaste ? Porque chegas a uma altura da tua vida e de tanto leres, queres mais e melhor, queres ser mais profunda nas tuas escolhas,por isso estranhaste no inicio, mas no final , se o livro for mesmo bom, irás gostar.
Menphis, eu nunca disse que não gostava de livros alternativos! O que eu disse (e estive a confirmar mesmo agora) foi que é preciso um estado de espírito especial para os ler e que é preciso fazê-lo na altura certa.
O que eu sou é a favor de passar por várias experiências literárias e ler um pouco de tudo, e é isso que tenho tentado fazer. É assim que por vezes se descobrem as maiores surpresas
Eu gostei bastante do livro, mas confesso que por vezes me foi difícil avançar… e não é sempre que tenho paciência para o fazer! Aliás, não conseguia ler só livros deste género senão dava em maluca
Pelo que escreveste parece-me verdadeiramente interessante.
Adorei este post. Acho que foi dos melhores que escreveste nos últimos tempos. Claro, sintético, profundo, e extremamente esclarecedor.
Parabéns!
Fiquei mesmo com vontade de ler o livro, apesar de saber perfeitamente o desafio que vou encontrar!
Estava a brincar contigo,é claro que é preciso um estado de espírito diferente para ler esses livros, por exemplo precisa de estar mais atenta e mais concentrada na leitura, e ás vezes também um livro mais light sabe bem na mesma
Neste momento estou a ler este livro e realmente sinto-me rendida…A escrita de C.Mcarthy é absolutamente fantástica.
Quanto ao vosso blogue, Canochinha e Cristina, só tenho a dar os meus parabéns!Gostei logo dele na primeira leitura e vou continuar a visitar-vos!
Joana, obrigado e volta sempre!
Terminei há pouco a leitura deste livro e lembrei-me de vir ver o comentário da Canochinha. Não passei pela sensaçao de estranheza, gostei de imediato do tom obscuro e melancólico. Não pude evitar o vazio que senti no final, a carência de saber mais, de querer mais para aqueles dois seres que tanto sofreram. Mas provavelmente a ideia é essa: não há mais nada. Acabou. É, sem dúvida, uma obra original e perturbadora.